Antologia “Fanal”

JOÃO RUI DE SOUSA


Declaração de Princípios

Não se pode enobrecer o sono.

É acordado
que as algemas se partem;
que o solo fica mais fértil,
que a luz, corda imaterial
e tão versátil,
melhor fulge na mente;
que a paz, ermo azulado,
mais junto fica ao latejar
do corpo, aos compassos
de voz e coração;
e que, felizes (beijando o sol
que as vê), brincam gaivotas,
lebres e crianças.

*

Sim, pois – caminhar num tempo raso
ainda que lúcido, seguir num tempo
brando de árvores carregadas:
o das palavras ágeis, mais exactas,
mais próximas das horas que levitam,
mais coladas aos corpos que se enlaçam,
mais junto à erva e ao rumor das águas
e mais perto das hélices dum futuro
que dê mais verde ao verde das planícies
e dissolva o bolor de tantas casas.

*

[...]

*

Que a voz enfrente sempre a violência,
mesmo o metal mais duro da peçonha.
Que um verso seja arremesso de pedra
contra feras de dolo e ramagens de dor.
Que palavras de brio, talvez ciscos de lava,
sejam das penhas soltas ou lançadas
a recusar cortinas de ardiloso sono.
Que as frases sejam pétalas despenhadas
com fraterno ardor e flocos de alvorada.

(nº 1, 19/05/2000)
Proibido andar sobre a relva
(crónica de José do Carmo Francisco)

Fiquei chocado, surpreendido e mesmo revoltado quando ouvi na televisão a notícia da morte do escritor Ferro Rodrigues anunciada como sendo a de um «colaborador dos Parodiantes de Lisboa». Para mim não está em causa que o escritor Ferro Rodrigues, tal como por exemplo escritor Santos Fernando, fosse amigo dos Parodiantes de Lisboa e tivesse colaborado com os seus programas «Graça com todos» e «Parada da paródia». E nem me interessa se esta notícia foi feita por ignorância ou por má fé. Para mim Ferro Rodrigues é o autor de três livros: Noite sem estrelas, Lusitânia Expresso e Proibido andar sobre a relva. E nem está em causa se ele era o pai do outro Ferro Rodrigues que exerceu funções governativas e foi secretário-geral de um partido. Isso não está em causa. Para mim o problema está em que a notícia refere a sua ligação aos Parodiantes de Lisboa e circunscreve as suas actividades a essa colaboração. Isso é que está mal, isso é que é incorrecto pois quem elaborou a notícia não pode ser refém de preconceitos. E a mim parece-me que a notícia deveria ter sido assim: «Faleceu Ferro Rodrigues, autor dos livros Proibido andar sobre a relva, Lusitânia Expresso e Noite sem estrelas. Foi amigo do escritor Santos Fernando com quem manteve parcerias no teatro de revista do Parque Mayer e colaborou nos programas dos Parodiantes de Lisboa.» Para dar uma ideia vou transcrever duas linhas do livro Proibido andar sobre a relva. Numa casa de fados alguém dirige-se a uma fadista e pergunta: «Rapariga queres uma letra para um fado novo?» E responde: «É um fado humorístico. O gozo dum fidalgo sem vintém que se vendeu à filha dum lavrador alentejano a troco duns cornos de cortiça.» É humor, um humor povoado pela tristeza porque Ferro Rodrigues sabia que «o humor é uma lágrima entre parêntesis.»

um poema de
NICOLAU SAIÃO
(no dia do seu 60º aniversário)


INTERIORES

Tentou olhar em volta: a cadeira
contudo, tapava-lhe a visão perfeita
do que estaria na sala, pela porta
um pouco menos que escancarada. Assim
se decidem movimentos minúsculos. Pensou: resolvi-me
a procurar vestígios de, por exemplo, antepassados
residentes entre folhagem e silêncios. Exemplificando:
perto duma bomba de gasolina, ao rés da estrada
mais para Oeste, parar por um momento. Porque
embora verdade, não há queimaduras na boca, isso não passa
de frase encolhida de vate relho. Nessa altura
sentir a dor habitual, o perfeito saber de quem
sempre desconhecerá tetravôs, ignóbeis
sedimentações de poeira, ceras, polpas de frutos.

Arrastam-se, minha pequena, por sobre as coisas
voos de aves, sensações
do não habitual, do não desfeito: lembrar-te-ás de mim
fígado contra fígado
nesse teu mapa de palavras, nessa
tua recordação despelada? Recordarás
este e aquele nome de cidades
o cheiro do café a ferver sobre um pulso
o instante repetindo-se sobre os meus pulmões?
Nunca fiz ou tentei
fazer um poema sobre Mozart. Lambo a pequena ferida
sobre o terceiro dedo, algo
provém de salas onde às vezes
se esquecem ora livros, ora peças de roupa: e essa
é a música feita na pleura e nos ossos

e alguém bate à porta
e um som de martelo vibra
e alguém procura provavelmente numa gaveta um objecto
e é de novo o princípio da noite
mesmo no chão, mesmo ao pé dos muros altos.

(in Os Objectos Inquietantes, Caminho, 1992 – livro vencedor do Prémio Revelação de Poesia, da Associação Portuguesa de Escritores)


AMADEU BAPTISTA
PREMIADO

O escritor Amadeu Baptista obteve o Prémio de Poesia e Ficção de Almada 2005, com a obra narrativa Estrela de Bizâncio, anunciou a autarquia local, que promove o galardão destinado a estimular a criação literária no concelho.
O autor, premiado com cerca de dois mil euros, foi escolhido, entre mais de uma dezena de concorrentes, por um júri formado por representantes da Câmara de Almada, Sociedade de Língua Portuguesa e Associação Portuguesa de Escritores.
O tema da edição do ano passado do prémio foi prosa de ficção.
O escritor, que tem vários livros de poesia editados em Portugal e no estrangeiro, recebeu o mesmo galardão em 2000, com a obra poética O Claro Interior.
Estrela de Bizâncio é o seu primeiro original em prosa.
Assinada com o pseudónimo de Paulo Andrade, a narrativa evoca os tempos de vida de uma mulher que, em registo de confissão, relembra passagens da sua infância, juventude e velhice: os amores, a guerra, a morte.
Em declarações à agência Lusa, o porta-voz do júri, José Costa Ideias, justificou a atribuição do prémio salientando no inédito de Amadeu Baptista "a qualidade poética do discurso e o rigor da expressão literária e da construção da ficção".
Amadeu Baptista contou à Lusa que Estrela de Bizâncio começou por ser "um poema excessivamente longo", mais tarde condensado num "monólogo narrativo".
Apesar de escrever "por instinto" e de forma "torrencial", o autor revelou que a obra faz uma referência "subliminar" à segunda invasão do Iraque, em 2003, pelas forças aliadas ocidentais.
Amadeu Baptista acrescentou que a obra é "um libelo contra a guerra" e que alude a "Bizâncio, ou Constantinopla, ou Istambul para universalizar a temática anti-bélica".
Nascida na Grécia Antiga com o nome de Bizâncio, a cidade de Constantinopla (actual Istambul, na Turquia) foi, durante séculos, a capital do Império Romano do Oriente e palco de várias guerras.
Natural do Porto, Amadeu Baptista, de 52 anos, é membro da Associação Portuguesa de Escritores e do PEN Clube Português, exercendo a sua actividade profissional como produtor de exposições na Casa da Cerca - Centro de Arte Contemporânea, em Almada.
Os seus poemas já foram traduzidos para castelhano, catalão, francês, hebraico, italiano, inglês, neerlandês e romeno.
O escritor tem colaborações dispersas em jornais, revistas, livros colectivos e antologias de diversos países da Europa e América Latina.
Em 2001 organizou uma antologia de poesia e prosa brasileira contemporânea e uma outra de poesia e fotografia sobre o concelho de Almada.
O autor tenciona publicar em Março um novo livro de poemas, intitulado Negrume, e, em 2007, uma antologia da sua obra poética.
Além disso, está a finalizar um outro livro de poesia e a escrever uma pequena novela.
"A prosa é um projecto que me agrada e que ambiciono cada vez mais, embora verifique que requer dedicação e disponibilidade que não tenho, de todo", confessou.
Instituído desde 1995, o Prémio de Poesia e Ficção de Almada visa galardoar autores que nasceram, residem ou trabalham no concelho.

A notícia é da Agência LUSA. "Estrada do Alicerce" acrescenta apenas uma profunda adesão à poesia de Amadeu Baptista. Poderá parecer redundância escrevê-lo, mas nunca é excessivo afirmar que se trata de uma obra fundamental na poesia portuguesa contemporânea.

OS NOVOS EXCLUÍDOS

Segundo revelam os jornais de hoje, há bancos que recusam abrir contas a desempregados ou pessoas sem profissão. Também hoje ficámos a saber que o desemprego real já atinge 611 mil portugueses, com tendência para crescer.
Não bastava que muitos bancos fossem já, ele próprios, agentes directos e/ou indirectos de desemprego, para além de motores directíssimos do endividamento dos portugueses (mediante campanhas de desinformação que estão a colocar a corda no pescoço de muita gente) - e agora temo-los como agentes de exclusão social, papel que lhes assenta como fatinho bem talhado. Não nos esqueçamos de que um cidadão sem conta bancária não pode ter cheques nem multibanco, o que o impedirá de aceder a muitos bens e serviços que a sociedade deveria proporcionar a todos... o que fará com que seja olhado com desconfiança por muitos dos seus concidadãos.
A DECO e o Banco de Portugal já protestaram mas, como tudo isto fica no âmbito da liberdade contratual entre bancos e clientes, nada será feito (é o costume...).
E assim vamos institucionalizando os novos senhores feudais e, também, os novos servos da gleba. Basta ver que, em casos de falência, os primeiros credores a receberem nunca são os desempregados (por mais famintos que estejam) mas, sempre, inevitavelmente, as instituições bancárias.

PS - Uma dúvida me assalta. Suponhamos que um desempregado resolve investir dois euros num bilhete do euromilhões. Ganha uma pipa de massa. Tenta depositá-la. Mas como, tecnicamente, continua a ser um desempregado (não tem realmente emprego), será que os tais bancos lhe recusarão a abertura de uma conta?