SOBRE A POESIA
(anotações)


O ser humano não consegue suportar a abstracção, porque ela é ou se aproxima do vazio. Do mesmo modo, um hiper-realismo é perigoso, porque se torna na outra face da abstracção total, reduzindo a capacidade de multiplicação de sentidos, inerente a qualquer verdadeira produção artística. Concreto e abstracto, real e irreal são conceitos impossíveis de contornar, difíceis de delimitar e de definir. Seja como for, rejeito qualquer forma artística que limite o enriquecimento do mundo, só edificável na multiplicação infinita de sentidos através da Arte.

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Tal como defendiam os cubistas, na poesia o importante não é narrar ou descrever o que vemos ou vivemos (a percepção, mesmo ficcionada, é sempre enganadora), mas introduzir, pelas palavras, uma quarta dimensão na realidade – a do pensamento –, seja ela transcendente ou de outra índole. Ao mundo (social, animal, objectual, humano) acrescenta-se outro mundo – que nasce do nosso conhecimento, empírico ou intuitivo, dessa realidade material ou imaterial, do nosso pensamento sobre o universo, da recepção irracional (?) da adesão de outros universos a esse mundo. A expressão – sem a qual nada existe ou se constrói – não se limita a imitar, a representar; exerce uma prospecção infinita sobre o sujeito escrevente, sobre o ambiente que o rodeia, quer exista quer não.

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Na Arte – logo, na Poesia – a realidade não deve ser representada, mas investigada e apresentada, seja uma realidade tangível/visível/material ou uma realidade intangível/invisível/espiritual. Sobretudo, concretizar o inefável e procurar a “espiritualidade” do mundo concreto. Concretizar o concreto ou espiritualizar o inefável é chover no molhado, empobrecendo a Arte.

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Uma realidade transcendente pode (e deve) concretizar-se em actos e símbolos mediadores, para favorecer a comunicação, isto é, a comunhão vertical e, de seguida, a horizontal. Não pode (nem deve) submeter-se à imanência, à matéria, à utilidade, ao poder autoritário: desaparece, passando antes pela explosão e/ou pela erosão. Religião, Arte, Poesia, Filosofia podem correr este risco – e correm-no todos os dias. Vale-lhes a heterodoxia dos vencidos...

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É preciso descalçar os poemas, mesmo que os pés sejam feios. Evite-se no entanto tirar as botas quando a falta de limpeza lançará para o leitor somente um intenso mau cheiro.

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A poesia é para comer (dizia, tanto quanto me lembro, Natália Correia). Logo, a poesia é um alimento. Nesta refeição espiritual, teremos contudo de comer obrigatoriamente apenas sopa (realismo, naturalismo, imanentismo...), por melhor que seja? E os pratos de peixe e de carne? Quem proclama que só a sopa é comestível e aceitável, quer reduzir os leitores à condição de utentes da “Sopa do Sidónio”, ou seja, da “Sopa dos Pobres”...

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Cada vez me repugna mais a cedência à erosão no entendimento poético. Já que as pessoas (quem?) não entendem a metáfora nem os símbolos, então temos de dar-lhes coisas “simples”, que de tão “simples” se tornam simplórias... Está a acontecer à poesia o mesmo que já sucedeu ao romance? Banalização?
Um novo paradigma? Duvido. Se for, caminha no mau sentido.

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Atracção-repulsa sempre que vou a uma livraria e me aproximo das estantes com livros de poesia. Medo do encontro e das suas limitações? Não. Percepção da periferia.

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Por que me sentirei cada vez mais enojado quando ouço ou leio as palavras “poesia” e “poeta”? Talvez por vê-las emporcalhadas, metidas no balde da grande confusão onde tanta gente (por ingenuidadade, por miopia, por relativismo ou por maldade) não consegue distinguir a merda do estrume. Que fazer? Não sei.

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Imaginar a partir da realidade e da sua leitura ou construir imagens apenas numa elaboração mental abstracta, desligada? Alguns querem obrigar-nos a escolher... Mas será preciso?

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Pratico uma arqueologia que me faz enquanto ser no espaço a que pertenço. Nomes, vestígios materiais, sabores, sentimentos – encontro de tudo enquanto escavo o mundo que me rodeia e o microcosmos que sou. Nada me pertence, mas tudo me pertence a partir do momento em que decido desvelar ou exumar o que antes estava escondido, adormecido, esquecido ou, mesmo, morto. Somos nós os agentes da descoberta e/ou da ressurreição possível – porque, como um dia escreveu Fernando Batalha, “a grande aventura é no interior que se desenrola”.

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Destilaria de milhares de leituras (muitas sem nada a ver com a poesia, outras bem longe dos livros ou da palavra escrita), a aguardente que deito do alambique, frouxa ou forte, é o resultado da fermentação e cozedura de sedimentos acumulados sobre a voz e sobre o pensamento.
Dívidas, tenho muitas – tantas sem saber a quem. Fora e dentro dos livros, sei que nunca conseguirei pagar os empréstimos contraídos voluntária ou involuntariamente.
Nem xamã nem periodista, aborrece-me sempre a monotonia das vias-rápidas e das auto-estradas. Tento caminhar por percursos variados e compósitos. E se gosto de deambular por praças e avenidas, sinto-me melhor quando percorro ruas e travessas, quando atravesso com vagar quelhas e veredas pouco frequentadas.

9 comentários:

Paulo Mendo disse...

Bem pensado e bem escrito. Lapidar. Inteiramente de acordo contigo.

Lívio Rebreano disse...

Acho que as suas anotações são muito sensatas. Revelam não só um pensamento claro como demonstram que não se trata de conversa fiada, pois a qualidade da sua poesia prova que diz o que diz com conhecimento de causa.
Não é como aquele crítico sempre muito grave e solene a falar de papo em cosmopolitismo e que depois, vai-se a ver, só faz versos desenxabidos que nos certificam que a sua filosofia é só treta engolida à pressa para ficar bem na foto de família.

Leonel Brum disse...

Não concordo com o Lívio. Ou antes, não concordo totalmente. De facto, um mau poeta pode ser um bom crítico e vice-versa, pois as disciplinas são diferentes. E o caso que cita é a meu ver paradigmático, o crítico a que se refere e calculo quem seja, penso eu, tem qualidade nas suas análises, sensatez e sagacidade embora também se note nele um fundo de pequenez ou mesmo de convencionalismo que o limitam.
Nisto de letras há que separar as águas pois é um mundo muito complicado.

Lívio Rebreano disse...

Pois eu concordo com o Leonel Brum, escritor a quem aliás admiro.É evidente que um mau escritor pode ser um bom crítico e a inversa também é verdadeira. O que eu quis dizer e no contexto se entende é que andam por aí alguns críticos que falam de alto sobre escritas alheias sem verem as próprias que são muito mázinhas o que demonstra que o que dizem é postiço.
Já agora repare que não me referia a nenhum em particular, era no geral, embora conheça pelo menos dois a quem a frase se podia aplicar.

Leonel Brum disse...

Agradeço ao Lívio a sua admiração mas acho que há certamente um pequeno equívoco, pois para além de muito esporádicas intervenções escritas decorrentes da minha profissão jamais me abalancei a publicar fosse o que fosse.
Registo que não se queria referir a nenhum crítico em particular, contudo a sua descrição parece assentar muito bem pelo menos a um desses destacados operadores. Mas se assim é...

Paulo Mendo disse...

Os críticos são homens como outros quaisquer com as suas fraquezas e debilidades de seres humanos. Assim sendo admito que alguns escrevam maus livros sem que se dêem conta de que de facto escrevem mal e sem qualidade. Isso é compreensível e arriscaria dizer mesmo desculpável. Ponto. O que está mal é os outros oficiais do mesmo ramo, ou por uma questão de falso pudor, ou por não quererem ferir susceptibilidades do colega, ou até por precaução, não os colocarem perante a realidade.
Isso é que está mal a meu ver.

Luis Eme disse...

Acho a poesia tão larga e tão pessoal, que teria de significar sempre um campo aberto, com árvores, sombras, sol, água, montes, vales, etc, nunca carreiros ou estradas.

Sinto-a e reparo que é quase impossível de catalogar... é por isso que a melhor maneira para a caracterizar, é: «gosto, não gosto.»

Lívio Rebreano disse...

Não sei, francamente, se essa será a melhor maneira. Em todo o caso é um bom princípio, dependendo da qualidade, é claro, do leitor.
Não devemos esquecer que existe e não faz mal que exista, uma segunda leitura que nos leva à célebre consciencia crítica.
O que está mal neste país e se calhar noutros sítios também, e certos críticos praticam muito, é a leitura com segundas intenções, não efectuada com o intuito de esclarecer mas com a deliberada intenção de beneficiar este, aquele, aqueloutro, ou esta orientação em detrimento de outra, etc.
Nas letras a meu ver como em tudo, deve haver justa intenção. Tenho verificado que no continente há coisas pouco agradáveis.

j.m. disse...

No continente...e tal? Deixa estar que nas ilhas a coisa também está linda, uma beleza de hortaliça.
E já agora, és da Madeira ou dos Açores? Se és da Madeira estamos conversados, se és dos Açores também devo dizer que há lá uns pimpolhos de se lhes tirar o chapéu.
Lá como cá...boa vai ela.