DESEJO A TODOS OS LEITORES E AMIGOS

DO ESTRADA DO ALICERCE

UM SANTO NATAL CHEIO DE FELICIDADE.

E QUE 2009 NOS TRAGA A TODOS A ESPERANÇA

QUE PARECE ESTAR EM EROSÃO.
José do Carmo Francisco

Saudação de Natal a Marta

Feliz Natal Marta! Lembras-te quando éramos nós os primeiros a chegar? Eu vinha de uma cidade distante mas chegava primeiro, sempre cedo. Tu vinhas de uma vila próxima e banhada pelo mesmo rio que passava frente ao nosso escritório. O teu pai destinava-te tarefas transparentes, repetitivas, obscuras e afastadas do protagonismo. Eu dava os primeiros passos numa segunda vida de trabalho depois de trinta anos noutro espaço e noutro lugar. Às vezes chovia, às vezes o vento assobiava nas janelas daquele escritório e nós dava-mos início ao dia de trabalho com um sorriso que era construído pela paciência dos dois, pela ideia pouco explícita mas concreta de que estávamos a construir um novo dia onde se procurava negar a monotonia. Às vezes eu percebia que nos teus olhos magoados havia uma ideia: o teu pai exigia muito de ti. Outras vezes eram as sequelas de uma doença recente que te empurravam para a tristeza e davam relevo à tua fragilidade. Nessas horas da manhã nós éramos os náufragos do tempo hostil que nos coube viver. Ás vezes falava-te da minha filha com um nome igual ao teu e das suas opiniões sobre tudo e sobre todos. A tua homónima é hoje uma jovem arquitecta à procura de um lugar de afirmação no seu espaço e no seu mundo. Nesse tempo eu já sabia que a vida não é fácil porque os pais e os filhos não nascem para serem amigos mas sim para serem apenas pais e filhos. Neste postal de Boas Festas diferente quero mandar-te, Marta, os meus votos de que continues todas as manhãs a construir esse sorriso teimoso e determinado fazendo de cada dia não uma monótona repetição mas a descoberta e a aventura de quem (como tu) sabe que o seu lugar no Mundo é próprio, exclusivo e irrepetível. Feliz Natal Marta!

Registo de azulejos existente em Setúbal.
Jules Morot

COMOÇÃO DE NATAL

Sou um espião mais do que perfeito
os meus olhos as minhas mãos a minha silhueta
tudo o que aprendi tudo o que esqueci
tudo quanto vi Senhor depois da vossa morte
até as colheres de madeira e o prato rude
ao jantar
no começo da noite
mesmo as peúgas com buracos do meu primo
mesmo a camisa esfarrapada do meu pai
e os alegres tristes olhos da minha mãe
e quanto compramos sem pagarmos
e sem que alguém o pague

Tudo isso guardo no meu coração.

Nas noites nos dias da minha adolescência
quando me sentava a meditar
na pedra pintada de branco
no meio da horta da pequena Armandine
que me oferecia castanhas cozinhas no tempo de Outono
e me limpava a cara com um lenço de linho
olhando o meu suor de sangue.

Tudo isso é o meu tesouro
para si caro Senhor para os vossos anjos
para os vossos assistentes na floresta celestial
para os notários do vosso augusto Pai
sem esquecer o pequeno que vós fostes
e mesmo o mendigo que vos ajudou
a subir para o burrinho
que vos transportou até à porta Susa
naquele dia da Páscoa.

Perdoai-me assim, Senhor,
as minhas faltas
as minhas súbitas alegrias
os meus estranhos silêncios

e todos os poemas que ficaram só no pensamento.

(Tradução de RV)

FERNANDO FÁBIO FIORESE FURTADO

Três poemas

ESCREVER POR AGULHAS

E se o menino, na urgência de longes,
do trem separa, aparta-se da gare
para embarcar num tandem de horizontes,
não descura do carvão, mesmo lápis,
com que escreve dias-mapa, cartas-ponte,
como a palavra fosse o desembarque
no qual reúne porquês, quandos e ondes,
enquanto a infância manobra e parte.

Nesta escrita, difícil operar
senão ao modo de, como por agulhas,
sejam as que, entre a hora e o lugar,
decidem se a linha míngua ou demuda
(ao foguista cumpre apenas queimar),
sejam aquelas que emprega a costura
e de viés ensinam a mão a chulear
onde nos punge o poema, suas rasuras.


LINHAS RIVAIS

Trem é texto quando encontra desvio
ou nos surpreende em meio ao pontilhão,
e da origem as pernas se desdão
para o mundo acomodar neste livro.
Mas texto é menos trem que o enguiço
de saber que no verso desembarca
apenas a prosa dessas coisas arcas
com que o menino se salva do olvido.

Seja a prosa como dormir num trem
e a poesia quando a aduana sobrevém:
naquela, até o sonho encontra sua reta,
enquanto nesta, nos sacode e espera
uma voz de si mesma estrangeira
- e como fosse toda ela suspeita,
a bagagem uma outra mão desfaz,
mão que vacila entre linhas rivais.


A MORTE COMO METÁFORA

Talvez outra metáfora ainda possa
antes deste texto descarrilar-se
- ou enfim estacar no livro-gare,
à espera de uma voz que, sendo oposta,
o conduza por avessas passagens
(passagens sem número, sem sintaxe),
para assim desfazer-se na manobra
que realiza entre o desvio e o desastre.

Análoga àquela que assombra o pai
quando dele o trem a altura subtrai,
uma outra morte o poema epiloga.
E se digo tratar-se de metáfora,
é porque, com seus modos e manobras,
nela a palavra desvia e me ultrapassa,
tal fosse menos termo do que o mote
o que do autor é um corpo discorde.

Um dia, o trem, livro de poemas publicado recentemente pela Nankin Editorial em parceria com a Funalfa, confirma Fernando Fábio Fiorese Furtado com um dos mais interessantes autores que, neste momento, escrevem poesia no espaço de Língua Portuguesa. Depois de Corpo portátil (2002), este comboio transporta-nos até um verbo que convida à meditação e à viagem, em linhas que tanto levam à catábase quanto à ascensão dos seres que povoam este mundo.

Adélia Prado é uma das poetas de língua portuguesa mais consistentes na sua produção. Há poucos dias fez anos e deu uma entrevista ao Cronópios. Pode ser lida aqui. Vale mesmo a pena.

NATAL ZERO OITO

(Textos de Nicolau Saião, desenho de H. Mourato)

Mais uma vez se cumpre a data que, para além de tudo o resto por dentro ou por fora, é uma saborosa pausa num quotidiano quantas vezes bichoso, inquietante ou imediatista.
Este ano o panorama, creio, não é de molde a fazer-nos sonhar amavelmente.
Não se trata só da violencia camuflada ou insolitamente nua que em tanto lugar se exibe contra indivíduos ou comunidades. Essa infelizmente já a conhecemos. O caso é um pouco mais complexo: as gloriosas certezas que percorriam esta parte do planeta, depois do apagamento por implosão da outra, começaram a dar de si, como se dum caixotão excessivamente repleto se tratasse. Mas o realmente grave – daí a inquietação – é que os seus próceres, alheios às terapêuticas eficazes, têm afixado uma estratégia de recurso que mais se parece com uma táctica de adiar para as calendas gregas o estrépito que já perspectivaram. E que é muitíssimo evidente.
Creio que nos cabe a nós todos aconselhar esses cavalheiros sobre a melhor actuação cidadã: abandonarem de uma vez por todas as prestidigitações e as habilidades de circo, tanto mais que não parecem estar a conseguir tirar coelhos de dentro da cartola...

Enfim, mais um período de Natal, essa quadra encantadora para a nossa não perdida inocência, chegou até nós. Como se usa dizer, parece que foi ontem a outra – e já trezentos e tal dias abalaram para o antigamente.
Mas calo-me já. Deixando-vos, com vossa licença e espero que por vossa estima, com o poema natalino que segue, cuja ilustração é de H.Mourato.
Boas Festas!


*

Quem fala de Natal perde palavras
à entrada do Inverno, na secura dos dias
no vasto frio das noites, tão lúcidas e antigas
tão de infância e de Agosto. O fogo
misturado: árvores, luzes, fantasmas
e as doces mãos das Avós. E ainda
um postal velho velho cheio de vento e de memórias.

Quem fala de Natal perde palavras, ganha
e perde as demais coisas que as palavras edificam.

“Quem grita no Natal? E Deus
não os fulmina? “. Quem mergulha os seus pulsos
na fria água do rio? Com seus chapéus à banda
em barcos engalanados
os anjos vão passando, dizendo amores esquecidos
dizendo estranhas frases, assombrando as moradas
onde afinal não nasce o tal de Nazareh. O sal e o
pão terrenal dos que ainda não foram
pelo ar, pela vida, pelos túmulos vazios.

Sim, pelo Natal as pobres casas em ruínas.

Para ser do Natal é preciso possuir
uma lembrança ardente, um brinquedo estripado
e muita tristeza feita nos anos em leilão
dos retratos tombando com um nó na garganta.
Para ser do Natal é preciso morrer
e viver de seguida com o sangue nos braços
esperando a estrela fixa do brusco espanto nocturno
junto à porta perdida dum milagre adiado.

Ah falar de Natal! Quem o consente?

O pão e o sal
talvez
de toda a gente. E um olho de animal
pairando no poente. Decisivo, visceral. E Deus, pobre dele
abrindo a água lustral (no bem, no mal)
frente ao horror da morte
terrena e inocente.

Por isso, no Natal
os segredos demoram
e tudo muda e tudo se envolve num pano branco barato
para que ninguém esqueça um corpo ferido que por debaixo jaz
- uma nova e desconhecida espécie de cadáver achado na ilha
dos animais inominados
e outras diversas coisas que por desespero se não apontam.

No Natal treme a casa, a casa
sempre caiada, como um sepulcro sem número e sem nome.

E o inventário dá, se estiver certo:
um coração ardido todo azul
uma recordação minúscula que se guardou num bolso
um riso salutar ensanguentado
uma pequena ironia desenhada a tinta de colegial
uma apenas esboçada mão posta sobre um antebraço
o lenço de cabeça duma tia que desapareceu na manhã
um gato tranquilamente dormindo ao cimo das escadas
uma rosa e uma palavra que a si mesmas se julgaram
duas mãos de pedra tremendo atravessadas por uma ferida
numa cruz de polo a polo
um hálito que soprado no peito nos enlouquece
um arrepio, uma agonia
uma tarde a fechar-se repleta de amargura e de alegria.

Talvez o Natal seja um rosto
ou uma madrugada de outono
ou um avião nocturno
ou um verão por detrás das coisas aparentes
ou um combatente jazendo de borco numa pia baptismal
ou os bramidos de dois seres abandonados encarando-se de súbito
numa rua da cidade
no escuro muito escuro de uma cidade do universo
quer dizer – luminosa e aterrada. E talvez

que tudo afinal esteja a mais, que tudo afinal
se resuma a filhós e azevias de um outrora
a canecas de café familiar
algures num horizonte, numa idade, num momento
no imenso murmúrio de uma voz sulcando o tempo.

E a chuva que diabo irá cobrindo tudo
no infinito Natal dos mundos desaparecidos.
NÃO HÁ LUGAR NA HOSPEDARIA

"Não havia lugar na hospedaria". De entre todas as frases que constroem a narrativa da Natividade é esta uma das que mais me impressiona. Mais do que uma imagem de pobreza, de ausência de abrigo, esta afirmação ecoa no meu cérebro como desencantada constatação da rejeição da digna humanidade de Jesus.
Hoje vivemos um Natal sem Natividade e sem Menino, envelhecido nas barbas brancas de um velho com barriga de fartura - empanturrado talvez pela "água suja" açucarada do refrigerante que trajou Nicolau de vermelho e lhe retirou o nome e o papel de servo de Cristo. Ausenta-se dele não só a pobreza de Jesus, mas até a sua imagem (envolvida nas notas de banco do comércio ou em papéis de embrulho), numa reverência aos deuses do neo-paganismo dominante (o Dinheiro, o Consumo, a Indiferença, o Relativismo, o Sucesso, etc.). Vivemos, assim, num mundo em que a verdade da frase registada no Evangelho se tornou evidente.
Como há cerca de dois mil anos, não há hospedaria que acolha muitos dos seres humanos que habitam neste planeta Terra. É fácil lembrarmo-nos dos impressionantes números da miséria extrema que revestem alguns países dominados por sanguessugas que, por vezes, até assumem as vestes da "democracia" para melhor se perpetuarem no poder e cometerem os seus crimes. Mais difícil é lembrarmo-nos daqueles que, ao nosso lado, não encontram lugar nas hospedarias da dignidade. E não são apenas quantos povoam as arcadas e os recantos do relento deste país, deitados em caixas de papelão. São também, por exemplo, as crianças que não encontram lugar nos infantários públicos, os jovens altamente qualificados que não têm emprego nem esperança de trabalhar no seu Portugal, os cidadãos dignos que se vêem espezinhados por dirigentes políticos económicos ou sociais levianos e/ou corruptos ou por um sistema de justiça em erosão, aqueles que perdem o seu emprego, os que vêem o seu sustento reduzido pela ganância bancária, os idosos que não têm que olhe por eles, sendo excluídos dos lares por causa das suas doenças ou por não terem dinheiro suficiente que compre a abertura de vagas.

*

Há pouco mais de um ano Rosária foi uma dessas excluídas que, todos os dias em Portugal, não têm lugar na hospedaria. Residente no concelho de Portalegre e doente de Alzheimer, quando a sua família se viu impossibilitada de cuidar dela durante alguns dias, ouviu em quase todos os lares da sua região a mesma resposta. Como se fosse uma pestífera, a sua doença provocou sempre a mesma recusa. Apenas o director do Lar de São Domingos dos Fortios lhe mostrou alguma luz na sua atitude sincera e sensível, apesar das dificuldades de espaço da instituição que dirige.
Felizmente a solidariedade aldeã resolveu as coisas de outro modo.
Ainda não há um mês, Deus, em definitivo, cessou por completo o seu sofrimento, as suas dificuldades e as da sua família.
Há sempre seres humanos que nos fazem acreditar na Humanidade e não descrer completamente deste mundo. No exemplo apontado, vemos o director de um lar, a vizinha solidária (D. Armandina) e até o médico (Dr. Serpa Soares) que, na hora da morte de Rosária, soube vencer os muros da burocracia cega do Estado e da insensibilidade de colegas seus.
Esta história poderá ser de proveito e exemplo, aclarando a consciência. Hoje, como há dois mil anos, há gente que é posta na rua porque não há lugar na hospedaria. Mas há sempre estrelas que guiam, grutas que na pobreza se abrem para acolher os excluídos deste mundo em que vivemos, pastores que oferecem o pouco que têm. Façamos parte deste segundo grupo - e concretizemos, com o nosso contributo, uma verdadeira comemoração da Natividade de Jesus de Nazaré.

As aventuras do nosso amigo Nicolau Saião

na Cronópios podem ser lidas e vistas aqui.

EDSON CRUZ

palimpsesto

toda poesia já
escrita
não se equipara
a toda poesia
inscrita
a poesia jaz


esmero

retocar a canção
chegar até
à imperfeição
de mero José
a impossível João


abulia

quando os homens
se abatem
todo o universo
— misteriosa simbiose —
se esbate
melancolia é soberana
sobre as lápides


samsara

pois tudo se transforma
mesmo o nada que não quer
ser algo vira alguma coisa
que logo vem a ser outra
do feitio que ela vida
quando se desativa
e a chama passa a se
chamar morte naquele des
equilíbrio tênue de quem
precisa e quer renascer



EDSON CRUZ (Brasil, 1959). Editor do sítio web de literatura Cronópios e da revista literária Mnemozine. Entrevistador do programa BITNIKS voltado para literatura na internet. Escritor, editor, revisor e preparador de textos. Revisor pela Ateliê Editorial, Editora Unicamp, Sapienza Editora e Novo Século. Curador do evento Cartografia Web Literária, em parceria com o SESC-Consolação (2008).
José do Carmo Francisco

O MISTÉRIO DE FORTALEZA

Seis flores secas, serenas
Envolvidas em resina
São duas jóias pequenas
No rosto de Carolina

Mistério de Fortaleza
Entre livros e escritores
Leva toda a tua beleza
Vás tu para onde fores

Nesta serena suspensão
Do sorriso frente ao mar
Vejo a porta e a solução
Do mistério a desvendar

Somos o mundo suspenso
Nos sonhos não editados
O que sinto e o que penso
Não cabe nestes quadrados

Nestas quadras de balada
Neste ritmo de romance
Uma vida mais revelada
Não está ao meu alcance

A jóia que está à vista
Nas orelhas em dois lados
É motivo a que insista
Por elementos e dados

Mistério de Fortaleza
Que fica por decifrar
Guarda uma incerteza
No tempo do teu olhar

Que o poema não encerra
Nem há canção que defina
Fica cheiro de mar e terra
Luz do rosto de Carolina

A HERANÇA DE DOM CARLOS

de António Cândido Franco


Será apresentado no próximo dia 4 de Dezembro, pelas 19 horas, o novo livro de António Cândido Franco, intitulado A Herança de D. Carlos, editado pela Ésquilo. O lançamento decorrerá no Espaço D. Dinis, sito na Avenida António Augusto de Aguiar, nº 17, 4º Esqº, em Lisboa. Sobre a obra falará o historiador Miguel Sanches de Baêna.

António Cândido Franco afirma sobre este seu romance histórico:


«Carlos I é a tragédia de toda uma família, uma tragédia que vem do fim doséculo XVIII e se prolonga até aos nossos arrabaldes. A história do nosso último rei a sério ­- já que Manuel II não passou duma criança que fez deconta que reinou durante dois anos ­ - foi afinal um caso que demorou bem maisde cem anos a germinar e a desenvolver. Que desmedido ventre o trouxe aomundo! Em vez de nove meses, noventa anos de gestação. É caso muito sério. E é por ser tão horrível e tão imensa, que uma tal tragédia nos parece tão estupenda. Sem conhecermos os avós, nunca perceberemos o neto. Carlos em si é um enigma, uma bola opaca e pesada de carne ou de sebo, avessa ao mais penetrante olhar, mas visto à luz dos hábitos e das histórias dos seus antepassados faz-se claro, fácil, transparente. Este ser que viveu quarenta e quatro anos pode ter sido reservado como um tímido, fechado como um oráculo e desconhecido como um estrangeiro mas o seu passado faz dele um sertão previsível e tão esperado como um hábito repetido; na sua figura e na sua história vieram afinal cruzar-se com a máxima força e crueza todas as virtudes e todas as taras que encontramos dispersas e desencontradas nos seus antepassados mais próximos
Victor Oliveira Mateus


a Cristovam Pavia



Pela janela do meu quarto ouço um ruído que se mantém:
longínquo, indistinto na sua distância, nessa permanência
de rumor que me sufoca. Que me sufoca e atordoa os pássaros
na ramaria em frente. Pela janela as vozes de um lugar!
Vozes que curiosamente vejo e que magoam este desacerto

que sempre volta entre o diferente que vislumbro e esta cidade
empedernida: fanqueiros com os seus manequins de papelão
carcomidos pelo tempo e pelo desuso; miúdos com seus carros
de esferas a ziguezaguearem na humidade do asfalto; um cão
vadio ( ou de liberdade cioso?) vasculhando os restos com que

os imprestáveis excessos mascaram sua vaidade. Pela janela
do meu quarto bebo a luz que a cidade não tem, mas que para ela
sonho em momentos de insurrecto furor ou de esparsa melancolia;
momentos onde ainda teço os poucos poemas que de mim – talvez –
se firmem, para júbilo dos que suportam, mas não desistem.
PONTES NA DIVERSIDADE

Houve um tempo, na Península Ibérica, em que todos (ou quase todos) falavam a mesma língua. Não me refiro tanto ao conhecido latim anterior ao século V ou a essa língua popular que, na opinião de alguns autores (Moisés Espírito Santo, por exemplo), seria a sobrevivência de falares orientais, semitas, com raízes nas migrações pré-romanas provenientes da Fenícia ou de Cartago – e que teria subsistido até ao século VI. Penso nos dialectos moçárabes com que os povos peninsulares se entenderam até à Reconquista, frutos de uma sedimentação secular de morfologias, sintaxes e vocabulários provenientes de povos e épocas diferentes, entrançando os ramos nascidos de raízes indo-europeias com outros semitas (árabes, berberes e não só).
As políticas senhoriais acabaram por dividir administrativamente povos unidos durante milénios (Lusitânia, reino visigodo, taifa de Badajoz…). De cada lado os habitantes começaram a adoptar a língua de prestígio dos seus senhores, sobretudo a escrever nessa língua – e, mais uma vez, Babel foi fazendo das suas…
Se lermos, contudo, documentos escritos até aos séculos XVI-XVII em português e castelhano (textos literários ou de outra índole) – perceberemos que as proximidades são mais significativas do que as distâncias. Não por acaso, até as elites desse tempo tinham orgulho em serem bilingues. O povo, esse, fazia o seu caminho paralelo – falando, sem escrever, à sua maneira.
Essa proximidade, muito esbatida até aos nossos dias, não viria no entanto a apagar-se de todo. Há uma faixa de território, traçada de norte a sul, com sessenta-setenta quilómetros de largura (tendo, invisível, uma fronteira pelo meio), em que as coisas se passaram de outro modo. No lado português da Raia, se nos adentrarmos pelas aldeias e vilas mais modestas (menos sujeitas às influências mediáticas…), não é raro encontrarmos pessoas que se orgulham de falar "espanhol" – quando, na realidade, apenas praticam uma "língua franca", de contrabandista, entendida e partilhada para além de Segura ou dos Galegos.
Se estivermos com atenção ao escutarmos o seu "falar de Portalegre – Castelo Branco" (como lhe chamam os linguistas), que pouco tem a ver com a pronúncia da Beira Alta ou com o português "cantado" do Alentejo abaixo de Arronches, começaremos então a surpreender-nos com uma fala em que, pelo menos, houve uma sementeira vocabular trazida pelos célebres "ventos" de Castela, fruto talvez dos contactos mútuos nascidos no contrabando e em muitos matrimónios celebrados ora no lado de cá ora nas igrejas das terras de Alcántara.
Termos que nenhum (ou quase nenhum) dicionário de Língua Portuguesa regista – parecem vir de vozes extremenhas, embora hoje estejam de tal maneira enraizados nos falares e na toponímia que muitos os consideram apenas regionalismos. O orvalho matinal é, por estes lados, "mareia"; um rochedo de grandes dimensões, um "canxo"; um matagal será sempre "matorral"; um pêssego come-se como "malaquetão"; um caminho rural largo é uma "carteira". Um homem aborrecido é "empalagoso"; uma mulher sabida e perigosa, uma "culebra"; se veste uma samarra, usa uma "pelice"; uma criança será sempre um "nino"…
Os exemplos poderiam multiplicar-se por muitas dezenas ou centenas. Faz falta, aliás, um trabalho sistemático de pesquisa e estudo deste fenómeno de intercomunicação linguística, afinal bem compreensível, – antes que a normalização imposta pelos modelos televisivos acabe com toda a riqueza dos nossos povos e seus habitantes.
Afinal, na língua, como noutros domínios – por mais que alguns políticos, a xenofobia e as guerras lutem pela separação – o contacto entre seres humanos trabalhará sempre em prol da ligação, da construção de pontes, primeiro motor do entendimento e da paz.

(Publicado, em tradução castelhana, na revista Imagen de Extremadura)

Nicolau Saião

ÀS VEZES CHEGAM CARTAS

Maria Estela

Cá estou de novo no Alentejo – que fica no extremo sudeste de Portugal, como é sabido - aonde cheguei ontem sob um intensíssimo frio que mais me fez sentir o contraste com o calor natural que nesta época do ano envolve Fortaleza, o Ceará e o Brasil por extenso.

Refiro-me agora ao calor do tempo e do espaço, não ao do ambiente pessoal e humano. Esse pôde a Maria Estela senti-lo, como eu o senti, como todos os participantes o sentiram – fôssem de Quito ou de Caracas, de Madrid, de Bogotá ou da Cidade do México...
Creio não me enganar, nem exagerar – como exilado que sou e de asa meio-ferida que ando – se disser que o clima de cordial fraternidade que pude sentir naquele hotel que por dias nos foi lugar de acolhimento, e nos entrepostos de bom tamanho onde decorreu fisicamente a Bienal, me gratificou, me espantou e finalmente me comoveu um bocado, pois fômos tratados com apreço e mesmo estima desde o princípio até ao fim.
Poderá a Maria Estela, que tem experiência destes eventos no estrangeiro, dizer com alguma surpresa ao lusitano/alentejano que sou: ”Mas é habitual ser assim, valha-o Deus!”. De acordo. Mas o que a minha experiência me diz, do que tenho participado dentro de portas, é que lá pelo último dia, perceptivelmente, se começa a sentir um ambiente estilo “já debitaste tua parlenga, agora vai pela sombra e adeusinho...”. Creio que me faço entender.
Não é preciso recordar-lhe a estruturação competente – e o Curador geral decerto se congratulou - que se sentia naqueles enormes salões, nas áreas e jardins de acesso, nos lugares circundantes. Na organização dos diversos lugares de palestra, de colóquio, de debate, de repouso. Até na própria forma como o transporte dos participantes foi congeminado. Coisas simples, está de ver, mas que têm uma importancia que não deve subalternizar-se.

A presença das muitas centenas de milhares de visitantes sentia-se fluir de maneira vivaz e interessada. Talvez seja por ingenuidade da minha visão, mas nas deambulações que tive ocasião de efectuar, nos minutos em que me pude “escapulir” das acções em que participei ou a que assisti, aliás com muito gosto, fiquei com a sensação de que havia nas pessoas – crianças, adolescentes, adultos de várias idades – um genuíno interesse pela leitura, pela presença física dos livros, do eventual saber e da eventual maravilha que neles reside e que deles parte. E aquele salão da literatura de cordel, Maria Estela, com centenas e centenas de títulos mesclando a imaginação e a proverbial vivacidade de um povo pronto para todas as viagens como dizia Ungaretti e que, sim senhora, merece um futuro de luminosidade a construir, como luminosas são as praias de Fortaleza!

Termino epigrafando – em jeito de relembrança aqui entre nós – a comunicabilidade que se estabeleceu entre os confrades que ali iam efectuar seus trabalhos específicos: era boa, era espontânea, era verdadeira. Funcionava como uma leve cooptação. Nos locais das sessões, bem como naquela sala de repastos, no hotel que nos serviu de guarida, radicaram-se momentos de estima fraternal que, para além de tudo, nos garantiram a ideia, que creio apropriada, de que gente diversa, de diversa formação e nacionalidades, podem sentir um leve ou mais marcado frémito de amizade entre seres que passam ao mesmo tempo pelo tempo da Terra. E certos nomes e rostos e vozes ficaram, ficam em mim: o boliviano Gabriel, a quem por ironia amiga eu chamava “anjo gabriel” em vista da sua permanente boa-disposição e simpatia humana; o mexicano Eduardo, cavalheiro-poeta bem digno dos velhos tempos, como dizia Eugène Canseliet; o poeta José Santiago, que eu lia há tanto tempo e ali achei em pessoa de ser bem humano; e tantos, tantos outros e outras que não refiro aqui para não ser redundante e eventualmente maçador...

E pois cá estou de novo no país e na província transtagana, satisfeito mas inquieto. Pois logo que saí do aeroporto e entrei num cafézito para uma bica retemperadora, olhei e vi que, na televisão... Mas cala-te boca, que não vou agora, ainda que ao de leve, linguajar sobre tristezas e caquexias nacionais!

O triplo beijinho de estima do
n.

ÁNGEL CAMPOS PÁMPANO

(1957-2008)



Faleceu ontem, no hospital de Badajoz, o poeta e amigo de Portugal Ángel Campos Pámpano, meu vizinho de San Vicente de Alcántara, onde nasceu em 1957. Sem ter convivido muito com ele, guardava-lhe estima pela sua poesia, pela difusão da cultura portuguesa em Espanha e pela sua postura fraternal. Tinha algumas dívidas para com ele: convites seus levaram-me a escrever na revista ibérica Espacio / Espaço Escrito, a participar em sessões de poesia em terras da Extremadura e a ter em mãos a grata tarefa de traduzir para a nossa língua o seu belo livro chamado Jola (nome de uma aldeia das terras de Alcántara, onde também haviam vivido alguns antepassados meus e seus).

Prémio Eduardo Lourenço, reunira recentemente a sua poesia em La vida de otro modo (Poesía, 1983 - 2008). O seu funeral acontecerá hoje pelo meio-dia, na sua terra natal. As condolências pode ser encaminhadas para a Biblioteca de Extremadura: Plaza de Ibn Marwan, s/n - 06001 Badajoz ou pelo email biex@juntaextremadura.net

"Las mejores palabras en el mejor orden"

JAVIER RODRÍGUEZ MARCOS

(El País, Babelia, 22/11/2008)

García Baena, Gamoneda, Segovia, Brines, Sánchez Robayna, Atencia ... reflexionan sobre cómo la poesía trasciende los géneros literarios y, aunque está lejos de tener los lectores de la narrativa, ha conseguido salir de su propio gueto

El lugar en el que se cruzan la eternidad y el tiempo. La energía que nace de la contradicción. Una emoción reconstruida... Todo eso, dice la tradición, puede ser la poesía, esa manera de usar el lenguaje que, como quería Percy B. Shelley, "levanta el velo que cubre la belleza oculta del mundo y hace aparecer los objetos familiares como si no lo fueran". Mucho más escueto y siguiendo a sus propios clásicos, Luis Cernuda lo dijo así: "Las mejores palabras en el mejor orden".
La búsqueda de una definición para su propio oficio es una de las ocupaciones más antiguas de los poetas. Otra es discutir el carácter minoritario de ese oficio. ¿Malos tiempos para la lírica? Lo dijo Bertolt Brecht hace medio siglo, lo cantó Golpes Bajos hace dos décadas y el año pasado lo certificaron las estadísticas. La encuesta sobre hábitos de lectura en 2007 promovida por la Federación de Gremios de Editores de España es rotunda. El 94,2% de lectores habituales lo son de novela y cuento. El porcentaje restante se lo reparten el ensayo (3,6%), el teatro (0,9%) y la poesía (1,3%). Comparados con los de narrativa, en efecto, los lectores de poesía son un bien escaso. Comparados con los que había hace 50 años, la escasez no es tanta. Fruto de una demanda limitada pero creciente es también una mayor oferta. "Antes dependías de las bibliotecas de los amigos, porque ni se editaba tanto ni los libros llegaban a las librerías. Por no hablar de Internet, que ha revolucionado la difusión de la poesía", recuerda María Victoria Atencia, premio de la Crítica en 1998 por Las contemplaciones (Tusquets) y, a sus 77 años, uno de los grandes nombres de la generación de los cincuenta. Para Atencia, no obstante, es difícil que la poesía pierda su carácter minoritario: "Pero no es un género residual". Así pues, un 1,3% de pura intensidad. En palabras de Francisco Brines: "La poesía no tiene público, tiene lectores".
Por otro lado, hace ya tiempo que los poetas le retorcieron el cuello al cisne de la cursilería. Hermética o prosaica, la poesía moderna ha elevado su nivel de exigencia hasta romper con los clichés que la habían disecado como un desahogo rimado para gente con la cabeza en las nubes. Pablo García Baena, que acaba de publicar la antología Rama fiel (Universidad de Salamanca) y de recibir el Premio Reina Sofía de Poesía, el más prestigioso de Iberoamérica, recuerda los tiempos en los que empezó a publicar: "La verdadera poesía estaba ausente. Abundaban los recitadores folclóricos que imitaban a Lorca". Con todo, el autor cordobés, de 85 años, no pierde de vista la famosa dedicatoria de Juan Ramon Jiménez -"A la inmensa minoría"- al señalar que la poesía necesita un determinado contexto -"No creo en la poesía para campos de fútbol"-, es decir, soledad y silencio, otros dos bienes escasos. "Mientras una novela te entretiene y te hace tomar distancia, un poema te hace pensar y revivir cosas que son tuyas. Los poetas se meten en tu vida. Y eso es duro".
En esa distinción entre la lectura de poesía y la de narrativa coincide también Antonio Gamoneda. Para el premio Cervantes de 2006, la poesía no es literatura: "La literatura descansa en la ficción. La poesía, sea clara u oscura, no. Manifiesta hechos existenciales (sufrimientos, gozos, temores), es una emanación de la vida". En opinión del autor leonés, de 77 años, la poesía trasciende los géneros literarios -"Hay mucha poesía en Kafka"- pero en medio del ruido de la modernidad ha perdido su función primitiva: "Empezó siendo el único medio de comunicación. Era uno de sus grandes valores en la Edad Media. Ese espacio lo ocupa ahora la televisión. Si ésta ocupa todo el cerebro de la gente, será el triunfo del consumo sobre la reflexión".
"Lo que dicen los poetas sigue siendo importante", afirma Carlos Pardo, de 33 años y ganador del Premio de la Generación del 27 con Echado a perder (Visor). "Hay un margen que sólo puede llenar la poesía: el de la reflexión sobre el lenguaje, el de la música de las palabras. Esto último algunos lo encuentran también en las canciones, pero tampoco hay tanta diferencia", continúa Pardo, que además de escritor es coordinador de Cosmopoética, el festival de poesía de Córdoba -que este año celebró su quinto aniversario, con los premios Nobel Seamus Heaney y Dario Fo entre 200 autores-, uno de los referentes del género al lado de la Semana de Poesía de Barcelona y del Festival de Poesía de Medellín en Colombia. Los festivales, de hecho, se han convertido en la mejor prueba de que la poesía puede salir del gueto. "Lo bueno es que a las lecturas", cuenta Pardo, "viene gente desprejuiciada a escuchar a poetas a veces muy arriesgados. Y funciona". Eso sí, hay más espectadores que lectores. Superventas aparte, si vale la palabra, y atendiendo a las tiradas medias, Pardo calcula que hay en España alrededor de mil lectores-compradores puros de poesía: "A un festival va gente que no compra libros de poemas, pero el pesimismo no está justificado. Cada vez hay más lectores. Además, se ha roto el provincianismo. Cada vez se publica más poesía extranjera, y más latinoamericana".
La industria editorial española, en efecto, se está poniendo al día respecto a la lírica escrita en América Latina. Un fenómeno reciente. "Yo hice un curso en una universidad de Madrid en los años noventa y algunos profesores decían directamente que no les interesaba. Eso ha cambiado", recuerda la colombiana Piedad Bonnett, de 57 años, que en el transcurso del pasado festival VivAmérica presentó en España su libro Las herencias (Visor). Los herederos de César Vallejo y Pablo Neruda no son ya aves raras en el catálogo de las editoriales españolas. Algunos, no obstante, no son tan optimistas. Es el caso del poeta canario Andrés Sánchez Robayna, coautor junto a José Ángel Valente, el uruguayo Eduardo Milán y la peruana Blanca Varela de la antología Las ínsulas extrañas (Galaxia Gutenberg / Círculo de Lectores), en la que Miguel Hernández convivía con Lezama Lima y Gil de Biedma con Ida Vitale porque el criterio de selección era la lengua española y no la nacionalidad: "Se edita, es cierto, pero dudo que los libros tengan incidencia real. Eso sí, estamos lejos de afianzar un espacio cultural hispánico al modo en que lo está, con una lengua menos fuerte hoy, la francofonía".
Uno de los incluidos en aquella antología, Tomás Segovia, es un buen exponente de esa cultura transatlántica. Nacido en Valencia hace 81 años, vivió en México durante décadas y ahora lo hace en España, donde acaba de recibir el Premio Internacional García Lorca. Según Segovia, el franquismo detuvo la poesía latinoamericana en los alrededores del modernismo para el lector español. "Hay mucho que recuperar", explica, "pero los nombres de poetas como Juan Gelman, Gonzalo Rojas o Eugenio Montejo empiezan ya a estar en boca de la gente". Respecto al futuro de la poesía, el autor de Siempre todavía (Pre-Textos) tampoco es pesimista: "Su valor numérico no se corresponde con su prestigio, que es enorme. ¿Que no la leen? Ya la leerán dentro de 200 años. La influencia de la poesía se extiende por contagio, cuerpo a cuerpo". -

PEQUENO LIVRO DE AFORISMOS

Na terça-feira 25 de Novembro 2008, será apresentado publicamente olivro de poesia PEQUENO LIVRO DE AFORISMOS seguido de ALGUMAS ALUMIAÇÕES, de Vítor de Oliveira Jorge.
A apresentação, a cargo da Prof.ª Fátima Vieira, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, decorrerá às 18:30 na Livraria Leitura Books & Living, situada no Shopping Cidade do Porto, ao Bom Sucesso (Campo Alegre/Boavista).
Estará presente o Autor, a quem se devem já numerosos livros de poesia para além da sua actividade científica de arqueólogo e pedagógica de professor universitário, bem como o Editor (José Carlos Costa Marques, Edições Sempre-em-Pé).
O livro, na verdade dois livros com laços de proximidade, contém um prólogo escrito por Manuel António Pina.

J. C. Costa Marques - Edições Sempre-em-Pé
Rua Camilo Castelo Branco 70/52 * 4425-037 Águas Santas
Telefax 22 975 9592
contacto@sempreempe.pt * http://www.sempreempe.pt/
A VERDADEIRA FACE
DE MARIA DE LURDES RODRIGUES

Os professores só poderão aceitar um modelo de avaliação cujo objectivo primeiro seja a formação, só uma avaliação formativa visando o aperfeiçoamento, científico, pedagógico e cultural dos professores fará destes, em cada dia, melhores professores e melhores pessoas, e consequentemente, só este modelo fará com que tenhamos uma melhor escola.
Este pressuposto fundamental, não só é completamente ignorado pelo actual modelo, como foi por MLR combatido: A primeira medida de MLR, em 2005,foi suspender a formação, dizendo, sem que ninguém a processasse por difamação, que a formação que os professores tinham feito até então era fantochada.
Em 2005, numa mesa redonda patrocinada pela RTP1, onde estavam entre outros,o antigo secretário geral da FENPROF, MLR caluniou, impunemente, faculdades, institutos politécnicos, centros de formação e o próprio ministério (entidades promotoras de formação) e ninguém nada disse.
MRL não quer que sejamos melhores professores e que tenhamos uma melhor escola. MRL quer formatar os professores a um modelo que faça deles funcionários modelados. O modelo de MRL, subjectivo e sinuoso, dar-lhe-aos elementos necessários para fundamentar as arbitrariedades que a cada momento, lhe convierem. A avaliação foi o instrumento legal que os patrões das empresas arranjaram para dispensar quem quiserem, quando quiserem. MRL cumpre o desígnio empresarial. Eis a Escola que quer para o Povo português: a escola-empresa, com organização empresa, com pensamento empresa, com aprendizagemempresa. O povo português quer uma Escola de solidariedade, de conhecimento, de cultura, de igualdade na diferença. A senhora ministra travestida de anjo salvador da educação, engana mas
não poderá enganar toda a gente por muito mais tempo.
Que fez MRL em 3 anos? Encerrou 3000 escolas; enclausurou milhares de crianças de tenra idade nos chamado Centros Educativos: Individualidade, identidade e afectividade tornam-se, ainda que com grande esforço dos professores, dimensões retóricas; fomentou o desemprego e a precariedade entre os jovens professores: Impede que gente jovem chegue às Escolas, aumentando a carga horário dos mais antigos que se vêem, ao fim de 30 anos de serviço, com horários de 25 horas lectivas, acrescendo dezenas de outras inerentes aos desvarios governativos, sem qualquer proveito para os alunos, nem professores. Os jovens professores são sub-contratados por empresas de "inglês a metro e música a quilo", encontrando-se muitos deles entregues à sua sorte, sem qualquer estrutura organizativa no âmbito laboral ou pedagógico. Fracturou a Carreira docente, fazendo surgir professores de primeira e de segunda. Pretendeu com esta medida, matar dois coelhos de um só golpe: fomentar entre os professores comportamentos desviantes da sua integridade e dimensão humanas. (Dividir para reinar, aprendeu com Maquiavel); arrecadar milhões, à custa do empobrecimento dos professores (afinal os milhões são necessários para alimentar os banqueiros).
Como é pois, possível que tenha a ousadia de dizer que o que fez e faz é para termos uma melhor escola? Ela diz, porém já ninguém acredita. MRL continua a apresentar-se travestida de anjo salvador da educação embora, penso, por pouco tempo, uma vez que estará à espera que o pó baixe, para apresentar a Sócrates a carta de demissão que já redigiu e que o seu defensor, penosamente cínico, aceitará. Sairá em volátil tapete vermelho, com "ministra" no currículo. Outro se seguirá que sob mando Sócrates, nada alterará, deixando tudo em lume brando, até ao momento de ter caminho livre, para novo ataque. E uma vez mais, seremos nós, o povo português, a pagara factura, desta feita, muita elevada.

Anabela Almeida, professora que o quer ser
EM FINAIS DO SÉCULO XVI
havia juízo

Nada deve ser mais importante nem mais desejável (…) do que preservar a boa disposição dos professores (…). É nisso que reside o maior segredo do bom funcionamento das escolas (…).

Com amargura de espírito, os professores não poderão prestar um bom serviço, nem responder convenientemente às [suas] obrigações.

Recomenda-se a todos os professores um dia de repouso semanal: “A solicitude por parte dos superiores anima muito os súbditos e reconforta-os no trabalho.

Quando um professor desempenha o seu ministério com zelo e diligência, não seja esse o pretexto para o sobrecarregar ainda mais e o manter por mais tempo naquele encargo. De outro modo os professores começarão a desempenhar os seus deveres com mais indiferença e negligência, para que não lhes suceda o mesmo.

Incentivar e valorizar a sua produção literária: porque “a honra eleva as artes.

Em meses alternados, pelo menos, o reitor deverá chamar os professores (…) e perguntar-lhes-á, com benevolência, se lhes falta alguma coisa, se algo os impede de avançar nos estudos e outras coisas do género. Isto se aplique não só com todos os professores em geral, nas reuniões habituais, mas também com cada um em particular, a fim de que o reitor possa dar-lhes mais livremente sinais da sua benevolência, e eles próprios possam confessar as suas necessidades, com maior liberdade e confiança. Todas estas coisas concorrem grandemente para o amor e a união dos mestres com o seu superior. Além disso, o superior tem assim possibilidade de fazer com maior proveito algum reparo aos professores, se disso houver necessidade.

"I. 22. Para as letras, preparem-se professores de excelência
Para conservar (…) um bom nível de conhecimento de letras e de humanidades, e para assegurar como que uma escola de mestres, o provincial deverá garantir a existência de pelo menos dois ou três indivíduos que se distingam notoriamente em matéria de letras e de eloquência. Para que assim seja, alguns dos que revelarem maior aptidão ou inclinação para estes estudos serão designados pelo provincial para se dedicarem imediatamente àquelas matérias – desde que já possuam, nas restantes disciplinas, uma formação que se considere adequada. Com o seu trabalho e dedicação, poder-se-á manter e perpetuar como que uma espécie de viveiro para uma estirpe de bons professores.

II. 20. Manter o entusiasmo dos professores
O reitor terá o cuidado de estimular o entusiasmo dos professores com diligência e com religiosa afeição. Evite que eles sejam demasiado sobrecarregados pelos trabalhos domésticos.
"


Ratio Studiorum
da Companhia de Jesus (1599).

Parece-me sensato este artigo
de Vasco Pulido Valente,
saído no Público, a 15 de Novembro.



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Sessão de homenagem a Maria Gabriela Llansol


Sintra, 24 de Novembro


mais pormenores aqui
Nicolau Saião

OS VERBOS IRREGULARES

COMO TOUPEIRAS

Em certas alturas, um irreprimível cansaço vai-se apoderando do cronista. Tal como do simples cidadão.
É que não dá, não dá mesmo para subsistir em termos interiores, em vista da catadupa de caquexias, tramelgas, piruetas e outras coisas estranhas que percorrem o quotidiano deste pátria que já foi mãe (de alguns...) e é hoje madrasta (de muitos mais!) ante a irredutível cavalgada de membros da res publica que deviam levar a nação a bom porto e andam a fazer navegar o navio como se de um inquietante pré-Trafalgar se tratasse.
Senão, vejamos: tempos atrás, aí coisa de 2 meses, veio o primeiro-ministro, numa cerimónia luzida e muito propagandeado, garantir in loco aos mineiros de Aljustrel que a empresa da qual dependem estava ali para as curvas, que coisas daquelas é que eram/são necessárias ao país! Pois bem: anteontem, a dita empresa encerrou a laboração nas minas, votando umas centenas de trabalhadores ao desemprego...
E ontem mesmo, após a grande manifestação inequívoca de milhares de professores, que sem escaramuças ou alarme popular disseram de suas razões em Lisboa, como todo o país viu, veio o prof. Cavaco Silva, que como se saberá está presidente – dizer com unção que os portugueses devem ter calma e serenidade. Ao invés de dizer ao chefe do governo que aja de maneira a não despoletar a necessidade de eventos assim – aconselha serenidade. Ou seja, busca colocar nos professores o ónus do tremor social, pois nenhum alarme social se verifica – o que há é natural em democracia.
É o que também fazia (“deixem-se de lamúrias”, lembram-se?) o benquisto Jorge Sampaio, felizmente já passado à Estória, quando presidente. Se algum português aventava, sensatamente, que as coisas andavam mal!
Ante os desmandos duma ministra ao serviço dum chefe de governo, pede-se calma - a quem anda a ser prejudicado. Respeitinho é que é preciso, já lá dizia O'Neill...
E, como corolário referido em todos os jornais e rádios, vem um notório antigo ministro do regime derrubado pelo 25 de Abril, Veiga Simão, apresentado e muito bem pelos mídias como “antigo ministro socialista”, propor aos intervenientes na contestação do Ensino “um pacto de silencio”!... Pois, segundo ele, o diferendo devia ser resolvido entremuros, entre a gente do meio...
É bem a palavra avisada dum antigo ministro do antigo regime. A opacidade e o negrume como método, de preferência tudo tratadinho no interior da Terra!
Como se todos fôssem, conceptualmente, mineiros – andando no interior da terra e afastados da luz do sol e da clareza
Ou, melhor ainda – como se tivéssemos todos perfil interior de toupeiras!
AS PALAVRAS DE MANUEL ALEGRE
sobre o que se passa na política educativa do Governo

"Confesso que me chocou profundamente a inflexibilidade da Ministra e o modo como se referiu à manifestação, por ela considerada como forma de intimidação ou chantagem, numa linguagem imprópria de um titular da pasta da educação e incompatível com uma cultura democrática.
Confesso ainda que, tendo nascido em 1936 e tendo passado a vida a lutar pela liberdade de expressão e contra o medo, estou farto de pulsões e tiques autoritários, assim como de aqueles que não têm dúvidas, nunca se enganam, e pensam que podem tudo contra todos.
O Governo redefiniu a reforma da educação como uma prioridade estratégica. Mas como reformar a educação, sem ou contra os professores? Em meu entender, não é possível passar do laxismo anterior a um excesso de burocracia conjugada com facilitismo. Governar para as estatísticas não é reformar. A falta da exigência da Escola Pública põe em causa a igualdade de oportunidades. Por outro lado, tudo se discute menos o essencial: os programas e os conteúdos do ensino. A Escola Pública e as Universidades têm de formar cidadãos e não apenas quadros para as necessidades empresariais. No momento em que começa a assistir-se no mundo a uma mudança de paradigma, esta é a questão essencial. É preciso apostar na qualificação como um recurso estratégico na economia do conhecimento, através da aquisição de níveis de preparação e competências alargados e diversificados. Não é possível avançar na democratização e na qualificação do sistema escolar se não se valorizar a Escola Pública, o enraizamento local de cada escola, a participação de todos os interessados na sua administração, a autonomia e responsabilidade de cada escola na aplicação do currículo nacional, a educação dos adultos, a autonomia das universidades e politécnicos.
Não aceito a tentativa de secundarizar e diminuir o papel do Estado no desenvolvimento educacional do nosso país. Sou a favor da gestão democrática das escolas, com participação dos professores, dos estudantes, dos pais, das autarquias. Defendo um forte financiamento público e um razoável valor de propinas, no ensino superior, acompanhado de apoio social correctivo sempre que necessário. E sou a favor do aumento da escolaridade obrigatória para doze anos. Devem ser criadas condições universais de acesso à escolaridade obrigatória, nomeadamente através de transporte público gratuito e fornecimento de alimentação. O abandono escolar precoce deve ser combatido nas suas causas sociais, culturais e materiais.Não se pode reformar a educação tapando os ouvidos aos protestos e às críticas. É preciso saber ouvir e dialogar. É preciso perceber que, mesmo que se tenha uma parte da razão, não é possível ter a razão toda contra tudo e contra todos. Tal não é possível em Democracia."

Publicadas no editorial da revista OPS - Opinião Socialista.



RUI ALMEIDA vence


Prémio de Poesia "Manuel Alegre"

É com muita satisfação que o anuncio, enviando um abraço ao poeta e ao amigo. Lábio cortado, original de poesia de Rui Almeida (o autor do blogue Poesia Distribuída na Rua), acaba de vencer a primeira edição do Prémio de Poesia "Manuel Alegre", instituído pela Câmara Municipal de Águeda. Entre outras personalidades, integraram o júri do concurso o poeta Nuno Júdice, a romancista Lídia Jorge e a ensaísta Clara Crabbé Rocha.

Do livro premiado - primeira obra deste escritor nascido em 1972 e residente em Queijas (Oeiras) - deixo aqui o poema inicial:


Suave, devastadora, a sombra deste tempo
De pernas dormentes por não caminharem.
Esta coisa de estar parado a assistir a nada,
Consciente da cor de cada objecto à minha frente
Enquanto a visibilidade se fecha dentro de um candeeiro.

Não são crianças que oiço, nem pássaros,
São os pés de quem sabe andar e se desloca,
É o riso de quem reage à sedução e ao modo do desejo.
O peito está vazio e abandonei-o
– respirar é o acto de misericórdia permitido ao corpo.

Penso até à exaustão naquilo que podia ter sido.
Demasiado cedo me reconheci como vivente,
Como servo do movimento e das funções vitais.
Não renego a força que em mim surge
Nem me permito a queda na tentação da morte.

Os braços são pequenos demais para a coragem,
Isso que nem sei que seja ou de que me valha.
O roubo é uma solução como outra qualquer
Para viabilizar a vontade ou o impulso do gesto.
O risco é projectar a voz para além do mar;
Para além de tudo o que de imenso se estende
Diante de um homem que tem olhos perdidos.
Como se perde a distância? – é esta a pergunta
Sussurrada no momento em que se desiste
E da qual nasce a sede que permite a resposta.

É no candeeiro que extingo o excesso do pensamento;
Não reconheço à luz os efeitos salvíficos
A que a aparência poderia levar-me.
Prefiro o vazio sistemático da brancura
Diluído no ar que me envolve e que respiro.

DESOBEDECER É PRECISO

"Perguntar-se-á: o que ando então a fazer o tempo todo para deixar de preparar as minhas aulas como deve ser? A resposta poderia ser dada até pelo meu filho, apesar de ainda ser criança: além das aulas, passo os dias em reuniões intermináveis para entender o sentido do terrorismo legislativo com que se tolhem e intimidam os professores. "

"Os responsáveis pelo actual ministério da educação parecem, talvez inconscientemente, querer pôr em prática o cenário tenebroso descrito por George Orwell em "Mil Novecentos e Oitenta e Quatro", em que a catadupa de despachos, decretos regulamentares, documentos orientadores, ordens de serviço, instruções superiores, recomendações, etc., frequentemente incoerentes – vale a pena dizer que acumulo em casa mais de mil fotocópias sobre avaliação, que me foram entregues na escola –, são a tradução quase literal do "Big Brother is watching you" da 5 de Outubro."

"Mas o pior de tudo é que o modelo de avaliação fabricado na 5 de Outubro não vai permitir distinguir os bons dos maus professores, ao contrário do que a senhora ministra alega. Talvez seja até pior do que a completa ausência de avaliação, premiando arbitrariamente alguns dos maus e castigando cegamente muitos dos bons. Se assim não fosse, que razões teriam os bons professores que desfilaram na manifestação de sábado para lá estarem? Ou será que os mais de cem mil são todos maus ou simplesmente estúpidos? Os professores sentem-se compreensivelmente ameaçados porque o modelo, além de burocrático, como convém ao Big Brother, obedece a uma espécie de pensamento único pedagógico: há um dogma pedagógico subjacente a que todos têm de aderir, tal como se emanasse do Ministério da Verdade orwelliano."

"A verdade é que neste momento já não são os sindicatos a comandar os professores, mas os professores a empurrar os sindicatos, de tal modo que os próprios sindicatos já não estão em condições de cumprir o acordo assinado há meses com o ministério. De nada serve, portanto, ao primeiro-ministro apontar o dedo ao incumprimento dos sindicatos. Se estes tivessem representado devidamente os professores, nunca teriam de voltar agora atrás com a palavra. Por isso, não vale a pena recorrer a fantasias e negar uma realidade muito crua: a insistência do governo no actual modelo está a degradar como nunca o sistema educativo nacional e a pôr em causa o normal funcionamento das escolas. E esta ministra ficará seguramente na história como a maior desgraça que se abateu nos últimos tempos sobre a educação em Portugal."

"E é também por isso um imperativo de justiça desobedecer a esta lei arbitrária e injusta, sobre uma questão de tão grande importância. Chama-se a isto desobediência civil e foi isso que fizeram em diferentes circunstâncias Gandi, Luther King, Bertrand Russell e muitas das referências cívicas e culturais do nosso mundo. É ilegítimo não cumprir a lei, diz a senhora ministra sem se aperceber que está a ser redundante. Pois é, é ilegítimo não obedecer à senhora ministra, pois foi ela que fez a lei. Mas terá mesmo de ser."

O artigo de Aires Almeida, professor na Escola Secundária de Portimão, editado ontem no jornal Público, pode ser lido na íntegra aqui.
Nicolau Saião

UMA MINISTRA PARA MANTER

Em certos círculos, tem sido pedido que a inadequada senhora que está ministra do eensino no governo Sócrates, provavelmente o pior depois de cimentada a democracia tendencial em que Portugal vegeta, seja demitida ou, num arroubo de sensatez ou de pudor intelectual, saia ela mesma por decisão própria.

Peço aos professores, fautores primeiros duma humanização inicial dos alunos enquanto crianças e, mais tarde, enquanto adolescentes, que não alinhem nessa facilidade.

Por consideração minha pela actividade da senhora em causa? De forma alguma.

Por uma razão muito diferente e, arriscaria dizer, de senso comum. Ou, então, de justa estratégia pedagógica e verdadeiramente democrática.

Sigam-me durante um par de minutos e todos entenderemos o porquê do meu alvitre.

Em primeiro lugar, devido ao cinismo político do homem que neste momento é primeiro-ministro. Em segundo lugar, pela sua insensibilidade ante o interesse mais alto da Nação, pervertido que está o seu senso das realidades e do quotidiano. Sócrates, enquanto ser de pensamento societário, é um sujeito que não consegue pensar o múnus político sem ser pela sua bitola conceptual de pequeno líder que, por um bambúrrio de sorte em que por vezes o destino é fértil, chegou alto.

Nesta conformidade, apenas consegue raciocinar a realidade política, enquanto factor de progresso e desejável bem-estar do país, pelos binóculos do interesse partidário e, muito particularmente, pelo óculo de longo alcance da sua carreira pública e dos áulicos que o rodeiam.

Assim sendo, a ministra (“ajudanta”, para empregarmos a expressão vivaz dum antigo manipulador do poder), não passa de uma cera moldável nas suas mãos hábeis enquanto governante.
Se Lurdes Rodrigues fôr alijada, tal como se fez na “jogada” Correia de Campos (ex-titular da Saúde, lembram-se?), isso permitirá que a cégada, mas mais disfarçada e eficaz, continue – para tudo dizer, que a miséria do ensino em Portugal siga em frente mas já camuflada com a sua habilidade de “animal feroz da política”, para citarmos os mídias que o bajulam.

Como na frase famosa do livro de Lampedusa, “O Leopardo”, “é preciso que tudo mude para que tudo continue na mesma”.

Seria fácil para o ardiloso primeiro-ministro correr com a inadequada senhora que, durante o tempo que lhe fez falta, o serviu como aia veneradora e agradecida.

O que é preciso é que a política de remancho termine. E isso só se conseguirá se Sócrates largar o lugar, democrática e popularmente mandado embora pelos cidadãos.

Neste momento, o maior factor de iluminação e esclarecimento é a acção prejudicial da inadequada ministra.

Mantenhamo-la no cargo como se de uma obra-prima de cristal se tratasse!

Primeira publicação do poema de Dinis Machado divulgado na última revista Ler: Fanal, suplemento cultural d' O Distrito de Portalegre, nº 13, 25/5/2001. Entretanto o texto já recebera publicação antológica neste blogue, no passado dia 9 de Novembro de 2006.
(Carregue na imagem para aumentar.)

JULES MOROT

(tradução e ilustração de Nicolau Saião)



O luto, a alegria


Os amigos que estão
no seu pé de página
como em caixão florido
pelos tempos futuros
têm de nós o gesto mais perfeito -

um sorriso transido mas mesmo assim
verdadeiro
e muitas mãos para afagar lembranças
e muitos dentes luzindo para criar o verão
e muitos olhos em repouso para dizer que é tarde

e muitos gritos para dizer que é cedo
e que é a hora de acordar
e de dormir porventura
e de bailar entre as árvores
e de correr entre as sombras
e a luz que elas provocam
e de sofrer um pouco
um pouco ainda
como crianças sem remorso sem dor sem amargura
de novo em viagem

sem efígie sonhada
e já desaparecida.

in “Le mardi-gras”
(Original em linha no
TriploV)
Nicolau Saião

Tempos de Novo Apólogo

Fátima Felgueiras absolvida de 22 crimes de que vinha acusada e condenada em 3 anos e 3 meses de pena suspensa por apropriação de 177 Euros de ajudas de custo e utilização por diversas vezes de um carro da autarquia” - Dos jornais

SE NÃO FOSTE TU FOI O TEU FILHO

Durante anos, a pretexto de diversas razões intimidatórias, foram feitas contra Fátima Felgueiras verdadeiras campanhas de difamação e de calúnia.
Nomeadamente em órgãos de informação que deviam ser responsáveis e alinharam naquilo a que Unamuno chamou "a solidariedade dos crápulas".
Uma monstruosidade, sim, porque o enquadramento real é este: como é que esta sanha foi possível num país civilizado ou que tem foros de o dever ser?
Para camuflar outros casos, esses sim vergonhosos e gritantes?
Durante anos segui este caso e escrevi sobre ele em Portugal e no estrangeiro. Muitas vezes, sabendo o que sabia de todo este assunto, me perguntei: como é que Fátima Felgueiras aguenta tanta pressão? De tentarem compará-la a um Al Capone, quando eu via olhos nos olhos que era apenas uma mulher determinada a não se deixar esmagar?
Condenada por umas ajudas de custo...por utilização de um carro...
Tenho a certeza de que em recurso se provará a sua completa inocência.
Mas o ódio contra ela, pelos vistos continua.
Não é ela o vosso inimigo, portugueses. Esse - são sim outros!
Em breve virei a lume num jornal estrangeiro, de maneira mais aprofundada, tratar este assunto de forma alongada e com pormenores como por exemplo este: por diversas vezes me foram feitos telefonemas anónimos injuriando-me, ameaçando-me de me “limparem o sarampo” (textual).
Mas porquê, perguntar-se-á? É muito simples: porque o meu filho mais velho, pessoa que como não é covarde nem gosta de sangue na praça pública, que é o que os caluniadores, os falsos moralistas e os difamadores gostam (eles “sabiam” que Fátima Felgueiras tinha roubado milhões, assim como “sabiam” que um carro que comprei com muito custo e continuo a pagar tinha sido outorgado para me taparem a boca - chegaram a esta infâmia) dizia, porque esse filho, de nome João Garção, revoltado com as calúnias concorreu e foi eleito por maioria absoluta como vereador na equipa camarária da “criminosa”. A ele ofertaram-lhe o mimo de difundirem que tinha fugido com o cofre da Escola Superior onde era director; mas não tinha fugido sózinho e sim com duas espanholas de Vigo... Depois, quando tal enxovalho foi desmascarado, fizeram soar que como era de famílias ricas, sempre que se sentia em apertos refugiava-se na paterna herdade de Évora...
Como qualquer ser medianamente culto saberá, a minha herdade é sim em Arronches. E, provavelmente por causa do calor alentejano, ou do frio alentejano, encolheu – e é hoje um simples quintal nas traseiras duma simples casa que uma tia me deixou e que com custo mandei recuperar e ando a pagar – porque, ao contrário do Estado português, que deve mil milhões aos militares além de outros pequenos trocos por aqui e por ali, pago as minhas contas e por isso todos os dias almoço sem ser de cara rebaixada!

Mas o mais vergonhoso é que a sanha odienta de Torquemadas de pacotilha não foi apenas propalada por primários e por gente sem gabarito. Gente houve (lembram-se de comentadores da nossa santa TV, etc?) que, eivados de santíssima sabença (conheciam o processo...sem nunca o terem lido!) deblateravam, deblateraram – e não davam direito de resposta – como aquele conhecido santarrão das letras que disse que as pessoas que concorriam com a autarca eram apenas lixo.
Ou seja: sou, com muita honra e assumidamente, pai dum bocado de lixo. Um bocado de lixo que, todavia, demonstrou de outras formas, publicamente, que é menos lixo e tem mais talento e vergonha numa mão do que o conspícuo indivíduo tem no corpo todo.

Foi esta, durante dez anos, a democracia de tais senhores. A da cobarde injúria. E não me refiro a quem, como era seu direito, analisava e comentava ponderadamente o caso!
Mas sim a essa récua de gente que, como dizia Cesariny, vê os argueiros dos outros sem ver as esguelhas próprias...
Simplesmente.
AINDA A COLÓQUIO

Afinal, segundo noticiou o Público de ontem, a dispensa da Colóquio / Letras atingiu apenas a directora, Joana Varela. Isto é, segundo noticiou o diário lisboeta a partir de informações veiculadas pela direcção da Fundação Calouste Gulbenkian, a revista continuará a existir, e até com periodicidade trimestral, o que é óptimo.
Assim está bem! É justo. Espero apenas que os projectos referidos no texto anterior se concretizem. E, já agora, que o novo director ou a nova directora não seja apenas mais um agente dos interesses instalados do meio universitário e/ou das capelinhas que tudo dominam para que nada evolua.

REQUIEM PELA COLÓQUIO/LETRAS

A direcção poderia ter sido substituída, mas o fim anunciado da revista Colóquio / Letras, na sequência da extinção da Cóloquio / Artes, deixa-me preocupado com o caminho que vem seguindo a Fundação Calouste Gulbenkian, empurrada pelos seus directores.
Sei bem que, nalguns aspectos, a revista perdeu o carácter de proximidade de outros tempos, em prol de um povoamento demasiado académico ou demasiado enfeudado a certos grupos ou tendências, geralmente influentes e bem relacionados. Se o "cinzento" do passado não correspondia a desinteresse, o "luxo" do presente não correspondia totalmente a elevação. Mas acabar com a revista, se se confirmar, será mais um sintoma do apodrecimento das linhas de comunicação da Cultura portuguesa.
Neste momento, ficam-me duas preocupações, referentes a dois números futuros (?) desejados por muita gente. Sairão ainda as cartas de Sebastião da Gama e o volume de homenagem ao poeta Cristovam Pavia? Se a resposta for negativa, ficaremos todos a perder.

José do Carmo Francisco


Quarteto para as próximas chuvas

de João Rui de Sousa

João Rui de Sousa, um dos mais importantes poetas portugueses, publica regularmente desde 1960. Este Quarteto é o seu 17º título de poesia editado.
Os poemas deste livro partem do lugar do Poeta: «O rosto. A escrita. A escrita / do rosto. O rosto da escrita. / Para além de tudo isso / sou um animal desaquietado / pela fragilidade dos cômoros / pela inclemência das chuvas / pelo fugidio dos pássaros / pelo inacessível das penedias / pelo íngreme e sinuosos dos caminhos / e, sobretudo, pelo sabor sempre inebriante / e sempre inesperado / da escrita e do rosto.»
Mas não deixam de chegar ao lugar do Mundo: «Os poetas são pontes / para numerosos recados. / Em certos momentos eles poderão crescer / bem por dentro das sua próprias prateleiras / e armários, no porão mais obscuro de um navio / muito íntimo; noutros instantes, todavia, / eles podem com palavras de alvor / e de resistência, ajudar a erguer as traves / de uma cidade aberta, de uma pátria livre.»
Entre o Poeta e o Mundo, a ameaça da Morte só pode ter resposta no Amor: «É bom que sejas tu e não a morte / o sumo do calor destas viagens: / as dos lábios mais rentes na cintura / as dos beijos que ardem nas espáduas. / É bom que sejas tu e não o vil ensejo / de alguém a destruir as nossas bodas: / colados bem na pele seremos deuses / e os anjos sorrirão porque não sabem».
Nega-se a Morte no acto de Nascer («Nascer é já galgar (ou destroçar) / esses muros que exortam à vitória da inércia / à rasoura da morte, à aridez do nada»), nega-se a Morte ma força da palavra: «Estreitos são, afinal, todos os caminhos. / Por eles terá de viajar a carne dos poemas. / Quase sempre as palavras serão sombras / de puras circunstâncias, acidentes fortuitos / pedaços de papel caídos na berma dos passeios… / Mas é por elas que se recortará o rosto do real.»


(Editora: Publicações Dom Quixote)
É PRECISO DIZER NÃO

É preciso dizer não ao estado a que chegou a Escola portuguesa. Burocratizada, cada vez menos democrática, persecutória, promotora de uma inversão de valores (em que - frequentemente - os menos capazes avaliam os que já deram provas da competência académica e profissional, por exemplo), fabricante de sucesso para inglês ver, destruidora do pensamento autónomo dos seus professores e alunos, castradora das iniciativas individuais tanto na acção quanto na formação ou no enriquecimento pessoal dos docentes - não corresponde ao que se espera de um país democrático, ou que se quer democrático, como o nosso. Assim não! Por isto e por muito mais afirmo que só não abandono o ensino porque tenho de sustentar dois filhos e uma família. Por isto e por muito mais, contra a minha tendência natural, vou estar sábado na manifestação de professores. Por isto e por muito mais concordo com o artigo de Manuel António Pina, publicado no Jornal de Notícias, e que aqui partilho convosco:

Quem pode, foge. Muitos sujeitam-se a perder 40% do vencimento. Fogem para a liberdade. Deixam para trás a loucura e o inferno em que se transformaram as escolas. Em algumas escolas, os conselhos executivos ficaram reduzidos a uma pessoa. Há escolas em que se reformaram antecipadamente o PCE e o vice-presidente. Outras em que já não há docentes para leccionar nos CEFs. Nos grupos de recrutamento de Educação Tecnológica, a debandada tem sido geral, havendo já enormes dificuldades em conseguir substitutos nas cíclicas. O mesmo acontece com o grupo de recrutamento de Contabilidade e Economia. Há centenas de professores de Contabilidade e de Economia que optaram por reformas antecipadas, com penalizações de 40% porque preferem ir trabalhar como profissionais liberais ou em empresas de consultadoria. Só não sai quem não pode. Ou porque não consegue suportar os cortes no vencimento ou porque não tem a idade mínima exigida. Conheço pessoalmente dois professores do ensino secundário, com doutoramento, que optaram pela reforma antecipada com penalizações de 30% e 35%. Um deles, com 53 anos de idade e 33 anos de serviço, no 10º escalão, saiu com uma reforma de 1500 euros. O outro, com 58 anos de idade e 35 anos de serviço saiu com 1900 euros. E por que razão saíram? Não aguentam mais a humilhação de serem avaliados por colegas mais novos e com menos habilitações académicas. Não aguentam a quantidade de papelada, reuniões e burocracia. Não conseguem dispor de tempo para ensinar.
Fogem porque não aceitam o novo paradigma de escola e professor e não aceitam ser prestadores de cuidados sociais e funcionários administrativos.
Se não ficasse na história da educação em Portugal como autora do lamentável 'pastiche' de Woody Allen 'Para acabar de vez com o ensino', a actual ministra teria lugar garantido aí e no Guinness por ter causado a maior debandada de que há memória de professores das escolas portuguesas. Segundo o JN de ontem, centenas de professores estão a pedir todos os meses a passagem à reforma, mesmo com enormes penalizações salariais, e esse número tem vindo a mais que duplicar de ano para ano.
Os professores falam de 'desmotivação', de 'frustração', de 'saturação', de 'desconsideração cada vez maior relativamente à profissão', de 'se sentirem a mais' em escolas de cujo léxico desapareceram, como do próprio Estatuto da Carreira Docente, palavras como ensinar e aprender. Algo, convenhamos, um pouco diferente da 'escola de sucesso', do 'passa agora de ano e paga depois', dos milagres estatísticos e dos passarinhos a chilrear sobre que discorrem a ministra e os secretários de Estado sr. Feliz e sr. Contente. Que futuro é possível esperar de uma escola (e de um país) onde os professores se sentem a mais?'
OBAMA

Obama ganhou. Em consciência, um europeu português como eu pode apenas manifestar o seu desejo de que as suas promessas de mudança se concretizem. A esperança só vale a pena se resultar em nascimento.
Não me fio, entretanto, na alteração da má imagem dos EUA no resto do mundo; embora os erros de Bush a tenham carregado, ela é resultado de alicerces ideológicos e psicológicos mais profundos. Bom será, por isso, que o novo presidente não venda pela simpatia a firmeza necessária para conter certas erupções anti-democráticas que dominam uma parte do nosso planeta.
Concordo entretanto com um depoimento de Onésimo Teotónio de Almeida, enviado ao jornal Expresso: "Obama não fará milagres. Aprendi com um antigo aluno, assistente de Al Gore na Casa Branca, que um Presidente é mais um gestor de pressões do que um promotor de mudanças. Mas criará certamente um ambiente psicológico bem mais favorável a mudanças. Na verdade, os problemas que afectam os EUA são de fundo, alguns mesmo estruturais, e esses ultrapassam quem quer que seja que ocupe a Presidência. Não creio, porém, que eles afectem apenas os americanos. Creio que tocam pelo menos todo o Ocidente e por isso ele se empenha tanto nas eleições americanas. É que, por mais que na Europa proteste, o futuro dela está cada vez mais ligado ao dos EUA. Fomos atingidos pelos mesmos males e as curas de que necessitamos não podem ser obtidas independentemente porque nos afectamos mutuamente como se tivessem os dois lados do Atlântico contraído doenças genéticas."
fundição


corta. atravessa. une e divide
os ossos de uma mão cujo metal
sustenta a carne na lâmina
e no ventre – para que as vísceras
não espalhem sobre a laje
o ouro e o odor dos excrementos.

recolhe-se o fogo na fusão
do esqueleto. a faca corta
os músculos e os tendões, sem deixar
nos poros uma gota (apenas
uma gota) de água negra
ou verde, povoada.

a faca corta o fogo
e a distância. o fogo e a cinza
dessa madeira de deus
que a circulação divide
para melhor retalhar e poluir
o grito lançado no abate.

fogo e ignição dividem entre si
a contramina esfaqueada pela fome.
nesta viagem, a faca corta o fogo
e o espaço. lança na boca
o metal e o cimento, os resíduos
(que somos) desse forno
cuja abóbada caiu sobre as cabeças.


*


o fogo corta o fogo. a faca
corta a faca. fogo e faca
existem, coincidem, sobre o
corte que é faca, fogo – gente.
nada existe. tudo coexiste –
como a carne, os ossos e as vísceras
que o tempo liquefaz
ou a mão desmancha, separando
(e reunindo) os elementos.

congela-se o metal para que a chama
nascida na hora do incêndio
possa fundir (e difundir) o aço
sobre o molde de que renascemos.

e, na mesma hora, em retrocesso
escrevemos do fogo o que os olhos
não vêem nem poderão tocar.
porque o fogo só cortado adquire
a têmpera do vento e do minério.
só cortado (e cortado sobre a forja)
é expressão da estrutura que entreabre
o sopro sobre a voz, pelo abismo.


*


há símbolos sem têmpera. não cortam.
são escórias espalhadas sobre a terra.
não adubam – nem podem derreter-se
para talhar enxadas e forquilhas.
só no corte o fogo será fogo. só
no corte a faca será faca. faca e fogo

cortam este mundo. dividem. reunindo
multiplicam o globo que rolamos
sobre a terra. sem faca e sem fogo
comeríamos outro fogo sem luz, outra
presença que uma faca meteria entre as costelas.
assim, cortando o fogo com a faca
(ou a faca fundindo nesse fogo
que o fole alimenta na garganta)

fundimos entre os ossos o metal
que nos faz criaturas de madeira.
PÁGINAS DE UM DIÁRIO

Há cidades (Portalegre, por exemplo) que são como o vinagre: amolecem os ossos, se não nos precavemos. Só assim se pode explicar que cidadãos com algum exercício de verticalidade e de clarividência aceitem, mais tarde, colaborar com algumas das manifestações mais nocivas e repugnantes da sua vivência social.

*

Portugal traduzido - abecedário de reflexões, de John Wolf. Este livro tem a virtude de sistematizar a existência nacional, apertando-lhe o pus quando necessário. Fica-me uma frase: "Caberá a cada um assumir a sua quota de responsabilidade na gestão da 'honra nacional', procurando contrabalançar os comportamentos marginais, através da assunção do contrato individual de consciência própria."

*

Percorrer as estantes dum alfarrabista é confrontarmo-nos com quanta erosão apaga as esperanças de notoriedade pública. Isso nos angustia? Trabalhar é contudo preciso. Mesmo que seja para o esquecimento (sempre relativo). Somos todos transeuntes nesta sociedade. Areias anónimas neste deserto.

*

O perigo de lermos livros de Claude Roy ou de C. Ronald é que nada, depois, nos aproveita, se não tiver a mesma altura ou uma dimensão estética e ética semelhante.

*

Um olhar para os dias, novo livro do poeta brasileiro C. Ronald. Diário de resignação na aproximação do fim? Sobretudo, uma linguagem arcana, simbolizadora, em que até as palavras chãs (ou sobretudo elas) assumem uma dimensão transcendente, que barrela a realidade mais concreta.

*

Instalou-se na Itália aquilo a que alguns analistas chamam um "regime pós-democrático" (eufemismo bárbaro para designar um novo autoritarismo, fundado sobre a alienação televisiva, o consumismo, a impunidade e a rasquice). Aqui, em Portugal, como bem viu José Gil na Visão de 2/10/2008, estamos dominados por políticos com capacidade anestesiante, veiculadores duma propaganda ignóbil, porque avilta para dominar.

*

A revista Ler trouxe uma entrevista de um poeta transmontano. A principal qualidade desta conversa é não esconder o calculismo e a hipocrisia do autor. Outros, por este país, têm a mesma face, mas escondida.

*

O primeiro andamento do Te Deum de Marc-Antoine Charpentier é um bom exemplo de uma obra a tocar a alegria divina do inefável. Transformaram-no no hino da televisão europeia... Emporcalharam-no.
Maria do Sameiro Barroso
vence «Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica 2009"

Maria do Sameiro Barroso, com o original Uma Ânfora no Horizonte,acaba de vencer a edição portuguesa do "Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica 2009".
O Prémio, instituído pela Câmara Municipal de Vila Real de SantoAntónio, numa parceria com o Ayuntamiento de Punta Umbria e acolaboração de Sulscrito – Círculo Literário do Algarve, tem o valor de 2500 euros, estando prevista a publicação, em edição bilingue, daobra vencedora.
O júri, constituído por Casimiro de Brito, Fernando J. B. Martinho e Manuel Frias Martins, escolheu o original Uma Ânfora no Horizonte de entre os 86 originais a concurso. Realçando a elevada qualidade das obras concorrentes, o júri recomendou ainda para publicação o original Labirintos Cruciais, assinado com o pseudónimo de Eva Maria. De acordo com o autor – Paulo Renato Cardoso – Eva Maria é mais que um pseudónimo, assumindo-se como entidade co-autoral num livro em que os poemas são atravessados por uma voz feminina. Em 2007, Paulo Renato Cardoso venceu o Prémio Daniel Faria com o livro Órbitas Primitivas: Fracções de um Tratado Heliocêntrico.

Maria do Sameiro Barroso nasceu em Braga em 1951. Médica, germanista,ensaísta e investigadora, licenciada em Filologia Germânica e emMedicina, fez a sua estreia literária em 1986. Publicou os seguintes livros de poesia: O Rubro das Papoilas, Rósea Litania, Mnemósine,Meandros Translúcidos e Amantes da Neblina. Vindimas da Noite é o seu livro mais recente, editado por edições Labirinto. Maria doSameiro Barroso é ainda a responsável pela organização das antologias Um Poema para Ramos Rosa (com prefácio de Paula Cristina Costa) e Um Poema para Agripina, com prefácio de Ana Paula Coutinho.

A edição anterior do Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibéricatinha sido vencida por Amadeu Baptista, com o livro Sobre as Imagens.


A ALMA ANTIGA DOS PÁSSAROS

Nada poderei esquecer, nem as algas nem os mapas,
nem a escrita, que em seu nimbo florindo,
tantas vezes me elege, chama, ou equivoca.
O girassol do amor esconde-se na relva, nas flores,
nas searas de nuvens.
De nada serve procurar a água, os pássaros,
os laboriosos elementos.

Quando as entranhas de luz se acendem,
bebo, nas águas macias do silêncio, a sagração,
o vinho, as plumas, o hausto condensado,
os cones de penumbra,
o veludo que levanta a ruga, a cicatriz, a leveza
da avenca.

Nas cartilagens de barro, violinos, artérias abruptas
pernoitam, entre formas de luz que se auscultam
na língua, no corpo, ilhéu azul, onde nada ressoa,
no cetim incandescente dos joelhos, da pele.

Numa aura magnética de ossos, sellaginelas,
a alquimia da escrita desenha, pelo ar de chumbo,
transparências, perfume, a lua claríssima,
estrias douradas, álamos aquáticos,
pássaros de penumbra

e um rasto estranho de rupturas, dicção.


in As Vindimas da Noite, Labirinto, 2008
Seis escritores portugueses
na Oitava Bienal do Livro do Ceará, Brasil

Os escritores Fernando Aguiar, Maria Estela Guedes, Joana Ruas, Nicolau Saião, Rosa Alice Branco e José do Carmo Francisco vão participar em Novembro na Oitava Bienal do Livro do Ceará, Brasil, que este ano tem como tema "A aventura cultural da mestiçagem".
A Bienal, que decorre entre 12 e 21 de Novembro em Fortaleza (Ceará), contará com a presença de agentes culturais (autores e editores) de 30 países de quatro continentes - África, América, Ásia e Europa.
A organização do encontro é da responsabilidade da secretaria da Cultura do Estado do Ceará.
O escritor Floriano Martins, curador do evento, esclareceu que este se destina a "revelar as diversas culturas envolvidas, reconhecendo os seus hábitos, costumes e literatura e comprometer-se com a democratização e mobilização do acesso universal ao livro, à leitura e à produção literária".
Numa entrevista recente a um jornal cearense, o curador declarou ter escolhido os autores - brasileiros e estrangeiros - para o encontro, tendo em conta a "qualidade da obra" e a "diversidade estética e geracional".
"A estranheza que se possa ter em relação à maior parte dos nomes não é demérito da parte deles e sim reflexo de nosso descompasso cultural em relação a esses países", disse.
Do lote de autores convidados fazem parte, segundo o mesmo responsável, os peruanos Carlos Garayar de Lillo e Carlos Germán Belli, o galego Carlos Quiroga, o cubano Abel Prieto, o argentino Rodolfo Alonso, o colombiano Jotamario Arbeláez, o mexicano Carlos Montemayor e a paraguaia Susy Delgado.
No tocante a brasileiros, citou os nomes de Ana Miranda, Isabel Lustosa e Chico Anysio (cearenses), Lêdo Ivo, Afonso Henriques Neto e Lauro César Muniz (não-cearenses).

(A partir de RMM, comunicado da Lusa, 27/10/2008)



José do Carmo Francisco



BILHETE NO BOLSO

Às vezes está tão longe
Às vezes está mais perto
Fala e ninguém o ouve
Como telefone no deserto

Vai dar uma longa volta
Pode morrer e não morre
Com um bilhete no bolso
Anda a pé, viaja e corre

Apanha a chuva dos outros
Porque é poeta concreto
Suja as mãos fica na rua
E desenha um ângulo recto

Traz às costas uma dor
Sem peso nem dimensão
Com um bilhete no bolso
Já não ouve o coração

Faz os poemas devagar
Num forno feito de fogo
Que nasce da combustão
Duma voz fora de jogo

Defende sem bem saber
Justos contra tiranos
Com um bilhete no bolso
Anda assim há muitos anos

Um quase nada lhe chega
Para o que vai sonhar
Um futuro sem a morte
Em todo e qualquer lugar

Escondido na multidão
Atravessa as ruas só
Com um bilhete no bolso
Há-de voltar para o pó

(in Leme de Luz, Sol XXI, 1993)