UMA CARTA PARA JOSÉ MIGUEL SILVA
(depositada aqui: http://eumeswill.wordpress.com/2010/01/26/progresso-onde-e-que-isso-ja-vai/#comments)


Caro José Miguel Silva, com toda a admiração que me granjeou o seu primeiro livro, pensei que lhe seria agradável a leitura deste texto sobre si que descobri há tempos num lugar de que infelizmente perdi a referência. Cumprimentos do RV



[de Edward Burton p/ José Miguel Silva]


as tábuas do balcão são de resina, contraplacado, pvc ou aparite. o mármore (onde escorrem copos) é prancha velha cujo cavername, lavrado pelo bicho da madeira, se revestiu de linóleo, de oleado.
cheira a vómito no canto da taberna.
não nego que alguns metros desse fluxo dão ao ouvido corpo e luzimento. mas a conversa (sem paralelismo) que, de hora a hora, repete a mesma frase (com charros, cuspo, vinho-carrascão), invade o olfacto, dá uma volta ao estômago.
um vómito (odor e ladainha) lança-nos fora, tira o apetite. porque um canto sem tasca, sem taberna, não sabe que um longo passadiço separa o esterco da estrumeira. que a merda e o estrume não deixam sobre a terra o mesmo adubo, a mesma voz (semente).



uma bebedeira não precisa de metáforas. overdose e falta de equilíbrio sujam o ritmo, as palavras, o olhar.
nessa taberna um canto (se) obscurece.



o cenário atrai, traz visitantes. continuará sendo simulacro à espera do ecoponto, do aterro.
pelo fogo passará (sem ignição). e nem o crescimento das gramíneas (sobre o terreno, livre de cascalho) conseguirá ocultar, passados anos, à sonda perfurando o solo e o plástico – o entulho de um canto que se ouvia, a toda a hora (gonorreia) sem cessar.

1 comentário:

perdido no escuro disse...

Obrigado pelas palavras nos Quartos Escuros, meu amigo. Almoçamos um destes dias? Abraço grande

João