JOÃO MIGUEL HENRIQUES

Dois poemas


HOCHGOBERNITZ
(SEGUNDO THOMAS BERNHARD)


os primeiros assomos de loucura
trazem a destruição dos campos todos.
no traço inculto das coutadas
mingua a vida
repousam as alfaias

dos quartos vazios de gente
das terras vazias de tudo
sobram apenas muralhas
(ninguém se lembra)

há um prenuncio de tragédia
capaz de vergar os dias
aos trabalhos dolorosos

é o triunfo das gerações
sobre a antiga casa paterna
somente um reflexo de luz
um declínio inteiro

quando saio do quarto onde moro
e venho às muralhas
lembrar-me das coisas
reparo que as chuvas de inverno
vieram aqui para ficar


HORTELÃO


o hortelão arrebata à terra
os frutos e as pedras pequenas.
desenha com as unhas
a marca do seu turno
em redor dos frutos.
exibe nas mãos o machado.
dilui-se nas oliveiras
a cortar os pés de burro

a manhã derrama pelo céu
uma poça de nuvens densas
e só a terra colhida de pedras
é razão apenas
para as minhas amarguras.

In
O Sopro da Tartaruga, edição de autor, 2005


Blogue do autor:
www.quartosescuros.blogspot.com

1 comentário:

Joaquim Palmeira disse...

Eu andei com João Henriques pelas ruas do mundo em Lisboa. É um profundo poeta de relevo. "O sopro da Tartaruga" é para quem não tem medo de sol interior. Eu girei sóis. Joaquim Palmeira