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[Carreiras]



não há semáforos à entrada da aldeia.
no entanto, o vermelho cai constantemente
sobretudo para aqueles que
querendo avançar
vêm de fora, sendo de dentro.

não há sequer uma passagem para peões
ou qualquer limite de velocidade
que justifique a sua presença.
existem, porém, semáforos invisíveis
que não obrigam a parar
mas conseguem que o automóvel
parta mais depressa.

por vezes sem cor, revelam dois ou três
rostos conhecidos (na terra), sentados
todo o dia na esplanada do café ou
(daqui por uns anos) debaixo de uma das árvores do largo
num albergue ou à porta da casa mortuária.

só o verde parece não existir
para aqueles cuja presença incomoda as pedras.
para esses, os semáforos têm apenas duas lâmpadas
uma amarela, outra vermelha.

não se vêem, mas existem
à entrada da aldeia – numa das curvas da estrada
depois do portão (sempre aberto) do cemitério.


*

dois poiais sempre ao redor. mas poderiam ser
dois cabos eléctricos a debruar a fachada da igreja
dois focos a escurecerem a torre ou apenas
duas placas com erros de ortografia.

assim se constrói uma aldeia.
mesmo quando existem roldanas
lembrando o embargo da construção.

a terra é a mesma. e se, em cinquenta anos, foi
cemitério, parque infantil, balneário público, junta
de freguesia e parque de estacionamento, a culpa
é apenas do terreno, instável, apesar da rocha.
a essência fica e o odor é o mesmo.
e não será uma trasladação em caixão de chumbo
que irá resolver o assunto.


*

das tascas nem uma sobrou.
a única que ainda se ergue
com portas há muito fechadas
será, com certeza, um quarto de cama
ou uma casa de banho privativa.

a rua nem sobe nem desce.
até os andores, em dia de procissão, preferem
agora estrada nova, num povo onde
as imagens têm reforma compulsiva
sem processo disciplinar nem culpa formada.

as bocas, essas, calam-se. como se as casas
e todas as palavras fossem clandestinas
não vão alguns ser como o santo
que, primeiro, se negou ao chibo da promessa
mas depois já corria atrás dele.

a alegria permanece, apesar das nuvens
e da cortiça (quase humana) que não sai
mesmo depois dos nove anos
correndo o risco de perder a serventia.

a alegria permanece. a vontade fica. regressa.
embora traçada a negro no rosto
daqueles cujo automóvel encontra
todos os dias (ou quase todos)
um sinal vermelho à entrada desta aldeia.

(para Maria Guadalupe Alexandre)


publicado também no Arquivo do Norte Alentejano

PORTUGAL

segundo UNAMUNO



"El pueblo portugués tiene, como el gallego, fama de ser un pueblo sufrido y resignado, que lo aguanta todo sin protestar más que pasivamente. Y, sin embargo, con pueblos tales hay que andarse con cuidado. La ira más terrible es la de los mansos."


"Portugal es hoy un purgatorio poblado de ánimas."


"La blandura, la meiguice portuguesa, no está sino en la superficie; rascadla, y encontraréis una violencia plebeya que llegará a asustaros."


"[...] el severo monumento [mosteiro de Alcobaça], desnudo, solitario, silencioso, recuerda, más que la independencia de la patria, la independencia del amor. Portugal, que como Inés, ha amado mucho y ha amado trágicamente bajo el yugo del Destino, no reinará también después de morir? La desgraciada amante, no es un símbolo prefigurativo, un augurio, de esta tierra linda, linda como Inés, víctima también de fatídicas pasiones?"


(in Por tierras de Portugal y de España, 1909)
DOIS LIVROS PODEROSOS

Leio, ao mesmo tempo, dois livros poderosos. Nas primeiras páginas, um que tem mudado tanta gente ao longo dos séculos: - Confissões, de Santo Agostinho. Quase no fim, outro que poderia ter mudado muita coisa na literatura de dentro e de fora, não tivesse sido censurado, tão mal lido e tão mal olhado em sete décadas: - Jogo da Cabra Cega, de José Régio.
Ao lado dos dois, Deus senta-se paciente...
De que lado, a ficção? Na memória travestida ou na memória desnudada?
A transformação produz justeza interior, reflectida no exterior que somos. Quer a aceitemos, quer não. Mas sairemos ilesos da leitura de livros como estes? Não creio.
José do Carmo Francisco


Entre a ausência e a memória

Estamos num quente fim de tarde no Café Peter de Lisboa entre uma sandes de atum e o inevitável gin tonic. Entre o pão que sabe a terra e o atum que sabe a mar. O gin tonic, esse é um convite a todas as viagens. Mesmo aquelas que se fazem sem sair da nossa mesa. Uma velha fragata recuperada aguarda os passageiros para uma volta pelo Mar da Palha. Parece que o nome deste estuário lhe vem das grandes inundações no Ribatejo no passado quando a corrente violenta trazia numerosos fardos de palha da Lezíria até Lisboa. Oiço, julgo que oiço, palavras, restos de palavras, sílabas, ditongos perdidos, pequenos sons da voz de Maria José. Misturam-se os dois tempos da ausência e da memória. E a mesa que parecia vazia surge povoada pelo tempo em que não havia distância nem silêncio. Todas as manhãs nesse tempo eram iluminadas pelos passos decididos de Maria José. Hoje, neste fim de tarde onde uma brisa teimosa procura empurrar o calor para o estuário do Tejo, despeço-me do Café Peter e passo de novo junto à fragata de cores garridas. De súbito vejo, julgo ver, o seu nome que mudou – em vez de Castro Júnior é agora Maria José. A voz de Maria José é um vento novo que empurra a velha fragata recuperada para uma travessia até ao outro lado do Mar da Palha. Eu sou apenas um pequeno ponto na grande multidão do Parque das Nações. Passam centenas de atletas urbanos a correr, outros pedalam vigorosamente em bicicletas caríssimas porque são leves como penas. Grupos de turistas multiplicam os flashes das fotografias de recordação. Entre a ausência e a memória de Maria José eu já não sou uma pessoa mas apenas um frágil e pequeno organismo sentimental.

AMADEU BAPTISTA


venceu o


com o livro

O Bosque Cintilante


O júri - constituído por Vergílio Alberto Vieira, José do Carmo Francisco e Ruy Ventura - atribuiu ainda menções honrosas a obras de António Sá (Grupo familiar - uma foto) e Jorge Reis-Sá (Cai a tarde).