LITERATURA, HOJE

Estive a ler no JL mais recente (3/8/2005) uma entrevista de Abel Barros Baptista. Embora aprecie muitos dos seus ensaios, tenho uma opinião reservada sobre o professor da Universidade Nova, sobretudo desde que fui seu aluno. Não obstante ter sido avaliado com uma boa nota nas disciplinas que leccionou, não podia concordar com o programa demasiado abrangente de algumas cadeiras (fiquemos por aqui...). Apesar destas "areias no sapato", li com gosto a entrevista que deu ao JL. Sobretudo a parte em que expõe as suas opiniões sobre o estatuto a Literatura nos dias que vivemos. Aqui ficam algumas passagens:

"(...) é uma pena [que] a maior parte das pessoas não [sejam] capazes de ler um livro de um autor que tenha um vocabulário um pouco mais rico. Até dizem que não vão ler livros que as obrigam a ir ao dicionário, como se tal fosse um defeito do autor e não do leitor. Mas esse é um problema mais complicado que tem a ver com a própria literatura ou com as consequências do facto da literatura ser uma indústria. Os livros tornam-se produtos e os produtos são coisas que as pessoas têm que reconhecer."

"É preciso vender os livros e as pessoas, em geral, não compram as coisas que lhes causem estranheza. Ninguém pensa inventar um frigorífico em que o utente tenha que ler as instruções para saber como se abre a porta. Só que um livro não é um frigorífico ou uma máquina de lavar. Muitas vezes, chegamos ao fim e não percebemos como está organizado. A maior parte das vezes é preciso lê-lo outra vez. As hipóteses de sucesso desses livros são cada vez menores."

"O problema é a concepção actual do que deve ser um livro. Acha-se que se um escritor pode escrever uma frase na ordem directa, com sujeito, predicado e complemento directo, não a deve inverter. Essa recusa de aceitar formas literárias mais elaboradas começa a estruturar aquilo a que hoje se chama público, que por efeito da indústria e do comércio livreiro, reclama o seu produto. Isso não acontecia até meados do século XX, porque havia uma noção de Literatura como Arte."

"[Há] um lugar cada vez mais difícil para a literatura experimental e dá origem ao aparecimento de autores que noutras condições nunca o seriam... Nem precisam de ter a arte de escrever. Escrevem para dizer o que lhes vai na alma, o que pensam."

"Hoje, os escritores medem-se pelo sucesso de vendas. A noção que havia de literatura no século XIX era, de facto, diferente. Dirão muitos que era mais elitista, mas a literatura não é uma coisa democrática. Toda a gente tem o direito de ler e de escrever, mas nem toda a gente sabe ler e escrever livros."

1 comentário:

Ribeirinho Leal disse...

A cultura de num povo também se afere por aquilo que lê e, infelizmente, de há uns anos para cá tem havido a preocupação de nivelar por baixo, de abandalhar a leitura e a escrita, acabando, assim, por se proceder a uma inversão de valores que acaba por dar o mesmo valor à lata amarela e ao ouro verdadeiro.
É uma pena!!!