SALAZAR NÃO ERA LADRÃO?

"[Há quem diga que] Salazar não era ladrão. É verdade, ou julgo que é verdade - mas no plano individual. Em política, é diferente: Salazar era "ladrão", mas um ladrão ideológico e conceptual, pois roubou (com o apoio duma camarilha fascizante) a Portugal o desenvolvimento, o livre exame e a liberdade. É dessa acção que ainda agora estamos a sofrer os efeitos negativos. Vejamos: um homem público, um dirigente, não é comparável a uma governanta ou um mordomo - honestinhos e de boas maneiras. Um dirigente, um governante, tem de ter outros requisitos: capacidade de gestão, de previsão do futuro, de bom manejo do presente. Não basta que um governante não ande a roubar carteiras publicamente. Não basta que um governante seja casto ou delicadinho com os porteiros dos ministérios. O cargo tem outro nível e outro patamar de exigencia conceptual: Churchill era um gastrónomo, ao contrário do frugal Salazar; um mulherengo, ao contrário do decentíssimo e familiar Cavaco; um amante do copo e do fumo, ao invés do contido e respeitável Marques Mendes - mas era um grande estadista, enquanto estes decentes cidadãos não passam de medíocres enquanto homens públicos. O que se exige de um político bom é que seja positivo para o progresso da nação e do povo. Não se julga um político pelos mesmos critérios com que se julgaria um desejável genro nosso ou um vizinho num condomínio ou num prédio. Disraeli era um beberrão, Pompidou era um gastador na sua vida privada - mas foram grandes homens. Salazar era um padreca de bons modos - mas fez o povo sofrer com a sua mentalidade de capataz de quinta beirão. Foi devido à herança mental de Salazar que Portugal se atrasou. Torga bem o disse: "O pior mal que Salazar fez aos portugueses não foi tanto tirar-lhes o pão mas, sobretudo, tirar-lhes a coragem de viver autonomamente e a imaginação de existir". Podia ser honesto na sua domesticidade, mas pública e politicamente foi, de facto, um salafrário. Que ainda nos está, mediante a sua memória inscrita na mente de ingénuos ou mal-intencionados, a prejudicar e muito."

Armando Manjamanga (in Portugal Diário)

1 comentário:

Zé Meira disse...

Apoiado, Armando!
Assim é que se dá resposta, com a verdadinha, aos que pretendem branquear o botas de Santa Comba.
Já se esqueceram do tempo em que nem havia pré-primária, o analfabetismo subia aos 34 por cento e o desemprego era o maior da Europa.
Mas agora, para esses nostálgicos do fascismo o homem só tinha virtudes. Se calhar, dentre elas, o ter esgotado a nação com a guerra colonial e no tempo de segunda fornecer tudo ao Hitler enquanto esmifrava o povinho. Mas isto eles não dizem.