As mortes exemplares
(texto de Nicolau Saião)

Os números aí estão, insofismáveis, com a dureza e a naturalidade próprias da amarga verdade: o distrito de Portalegre é a segunda região da Europa com mais elevada percentagem de suicídios. Só é ultrapassada por Beja, essoutra região desprotegida de Portugal.
Números divulgados pela Associação de Estudos Estatísticos, corroborados por organismos da União Europeia, abrem o pano de um triste cenário para quem tem o hábito de ler periódicos daquém e dalém mar.
E aí está a região chave do nordeste alentejano, mais uma vez, a ter o lamentável privilégio de se ver citada por razões negativas.
Razões? São muitas, desde o recalcamento psicológico-sexual propiciado pela pressão duma religião mal-assimilada e nos limites da medievalidade até aos preconceitos provindos duma vida de relação atabafante e mesquinha, com o espectro da debilidade económica e da falta de meios sempre no horizonte: onde o comércio e a indústria não conseguem ir além da ronceirice requentada, só quebrada pela prosperidade das grandes superfícies, onde se encara frequentemente como cultura a efectivação de acções para entreter e lançar poeira nos olhos; e se tenta colonizar os espíritos mediante sessões que não deixam resíduo, que nada criam e nada proporcionam de durável, buscando transfigurar medíocres boas-bocas em “génios por via administrativa”…
Onde os que se rebelam contra a impostura são em geral marginalizados e substituídos por gente sem talento e frequentemente sem ética.
Onde o turismo, apesar das encenações a que alguns se entregam para “deitar milho aos pombos”, alcandorando-se quiçá a prebendas, não anda nem desanda. Ou antes, sarabanda…
Que o perímetro desta região está de facto doente, eivado de neuroses sociais onde aflora o “discreto” desprezo pelo cidadão por parte de organismos de segurança, violências oficiais subterrâneas e desvigamentos socio-económicos, infelizmente já o sabíamos. Agora aí está preto-no-branco, para nosso desgosto, nossa vergonha - e falta dela nuns tantos.
Mas que fazer quando os organismos médicos são entidades persistentemente anquilosadas, nalguns casos até com gritantes fracturas no seu existir? Quando as "forças vivas" olham mais para o umbigo que para o bem-estar dos cidadãos a quem por vezes hostilizam quando não vergam o pescoço à canga com que habitualmente tentam jungi-los? Quando certas entidades espirituais-clericais avalizam a ignorância e substituem o esclarecimento e a autêntica vivência religiosa por actuações visando a permanência de teimas e de escleroses mais de cunho beato-falso que filho do legítimo cristianismo digno do século em que estamos?
Diz o ditado que “o pior cego é aquele que não quer ver”. Mas o pior mesmo, segundo creio, é o que tenta que os outros não vejam.
Pela minha parte acrescentarei que, mais que aos obstinados, a culpa de situações assim cabe aos que tentam substituir-se à vida clara, ao interesse dos concidadãos - para continuarem a seroar nas suas confortáveis posições extáticas, oportunistas e sectárias ainda que à custa de um ambiente ilegítimo e suicidário.
Que o “Deus das pequenas coisas”, como dizia Arundhati Roy, nos ajude neste período pré-natalício…

2 comentários:

Roque Santinho disse...

Como punhos. Um Alentejo a pedir que certa gente tire a caraça. Quando os ouço por aqui a dizer "o Alentejo tem futuro!" já sei que me querem lixar. Querem é viagens ao estrangeiro para engatarem.

m.a.romão disse...

Não vale a pena Nicolau,por muito que se escreva eles não ligam, isto só lá vai doutra maneira ou emigrarmos.
Não é desanimo é verdade, aqui em Fronteira é a mesma coisa, não quer dizer que não aprecie o que escreve mas o que eles precisavam era...com o cajado do Zé do Retacho.