Eu,
comovido a Oeste

(crónica de José do Carmo Francisco)

Não, caros leitores. Não se trata de uma nova leitura do livro homónimo de Vitorino Nemésio. Eu comovido a Oeste sou eu mesmo. Eu, obscuro cronista numa manhã fria de Lisboa, pouco tempo depois de ter descoberto num alfarrabista o livro Litoral a Oeste de José Loureiro Botas. E fiquei comovido porque este livro agora por mim recuperado tem muito a ver com a minha educação sentimental. Alguns dos contos deste volume com capa de Manuel Ribeiro de Pavia estavam no livro de leitura do Ciclo Preparatório quando eu tinha dez anos. E fiquei comovido porque vi de novo aquelas figuras dos contos ao meu lado: a Tia Morganiça, o Pichelim, a Rita Rebocha, a Ana Fateixa, a Jacinta Caréoa, a Maria Rita, a Raposinha, a Leandra. Era gente que saltava das páginas dos livros e vinha para o pé de nós, misturando as suas vidas e as suas lágrimas com as ondas do mar na Praia da Vieira. A própria história do autor do livro, filho de gente humilde que começou a trabalhar com 12 anos e abriu uma pastelaria onde se juntavam escritores me comoveu. Eu próprio sou filho de gente humilde, comecei a trabalhar com 15 anos e tirei o Curso Comercial como o José Loureiro Botas. Também a mim me disseram que não tenho nome para ser escritor como se a qualidade da escrita dependesse do bilhete de identidade de cada um. Também fiquei comovido pelo prefácio de Tomás Ribeiro Colaço com palavras que deveriam estar à vista de todos em todas as redacções de todos os jornais e de todas as rádios: «Continue. Escreva mais, como sentir. Escrever é semear. É esperar, insistir. É amadurecer. É querer. É atirar pedaços de alma para uma folha de papel. É sofrer em silêncio e pensar em voz alta. É demandar perfeições que não se atingem, procurar ecos que não se ouvem, erguer castelos que ficarão desabitados, cantar ansiosas canções que ninguém escuta ou entende. Mas o espírito é terra abençoada à qual nunca se atira em vão uma semente viva; apenas sucede às vezes ser lento o germinar... E quando o escritor assim escreveu, sucede um dia que outros encontrem na sua obra todos os mundos que ele criou enquanto a servia» Fim de citação.

(na imagem: retrato de José Loureiro Botas - Vieira de Leiria, 1902 / Lisboa, 1963)

2 comentários:

nicolau saião disse...

Para me congratular e irmanar com JCF, felicitando-o por este texto, abandono por um minuto o meu exílio voluntário e deixo aqui este apontamento referente a gentes que não querem que ele tenha nome de escritor (estatura tem-na ele e grande): considerável tempo atrás houve um fulano escrevedor que, posto perante a minha alta estima por ele, me disse esta coisa nefanda:"Não ponha esse indivíduo tão alto...ele nem é licenciado!".
Foi o mesmo cavalheiro que ofendeu num escrito Ruy Ventura, por - segundo ele - o Ruy me ter citado "demasiadas vezes" no seu livro "Escritores e poetas da Região de São Mamede"...
O nome não o deixo agora, por uma questão de piedade.
A JCF e RV a estima e o apreço sempre renovados da parte de alguém que também não tem nome de escritor e mesmo assim anda contente na existencia!

Ruy Ventura disse...

Bem aparecido, amigo!
Abração