José do Carmo Francisco



D. Duarte
de Luís Miguel Duarte


Não por acaso este volume tem o subtítulo de «Requiem por um rei triste». Na verdade D. Duarte, o décimo-primeiro rei de Portugal, filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre foi um rei muito especial. Nascido em Viseu no ano de 1391 e armado cavaleiro aos 24 anos, casou-se em 1428 com D. Leonor de Aragão tendo sido aclamado rei em 1433. Faleceu em Tomar no ano de 1438 deixando um reino dividido entre o seu irmão D. Pedro e a sua viúva, a rainha D. Leonor. Marcado desde o século XIX pela imagem fortemente negativa que dele traça Oliveira Martins, a vida de D. Duarte é fascinante: escreveu dois livros, deixou outro de notas e apontamentos, ajudou D. João I na governação, foi pai de nove filhos, sofreu uma depressão, durante o seu reinado os portugueses dobraram o cabo Bojador e perderam uma batalha – e ele um irmão – em Tânger.
Um dos aspectos mais curiosos da sua vida tem a ver com a sua especial relação com a escrita: «D. Duarte introduz pela primeira vez na língua portuguesa alguns latinismos que depois se tornaram vocábulos de raro sucesso: fugitivo, evidente, sensível, abstinência, infinito, circunspecto ou intelectual são alguns deles. De resto algumas das melhores páginas do Leal Conselheiro são precisamente aquelas em que ele medita sobre a língua: é o caso da análise de campos semânticos como tristeza, nojo, aborrecimento, pesar, desprazer, saudade, avisado, percebido, previsto e circunspecto. O que lhe faltou eventualmente em fluidez e elegância de escrita, sobrou-lhe em visão política, em capacidade de articular o passado e o futuro ao serviço de uma ideia de reino.»


Editora – Círculo de Leitores
Capa – F. Rochinha Diogo

1 comentário:

paulo mendo disse...

Com estas pequenas recensões, JCF preenche uma lacuna que aqui, como noutros espaços semelhantes, se estava a sentir.
Creio que todos nós, leitores deste blogue, ficamos a ganhar.