José do Carmo Francisco

Dissertação
sobre o Nocturno de Chopin,
opus 9 nº 1

Há quem lhe chame Nocturno mas eu, modesto amador, sem diploma nem outras qualificações, oiço a interpretação de Maria João Pires e penso: deveria chamar-se poema sinfónico. Esta música leva-me a ligar de novo dois tempos separados pela angústia e pela distância. Estamos de novo em Setembro de 1973, eu acabo de ser promovido a furriel e tu chegas a Lisboa com todas as dúvidas de quem acabou o sétimo ano do Liceu. Estavas entre Medicina e Educação Física. Descubro o teu rosto numas escadas, num fugaz olhar de quem se cruza sem se conhecer mas percebe que está ali uma pessoa especial. A irmã mais nova de uma fratria de sete irmãos com dois rapazes e cinco raparigas, a mais nova, a mais protegida, aquela de quem todos e todas falam como a menina. O diminutivo envolve o teu nome com um halo de ternura tão grande como a Serra de Aire ou como a espuma sem fim da Praia da Vieira de Leiria. A tua voz acumulava todo o calor do Verão da Estremadura, toda a cor das maçãs mais vermelhas da nossa mais bela Província. Temos junto o que os outros só podem ter em separado: o iodo das praias, as planícies semeadas, as encostas ricas de vinha e de pomar e, por fim, as serras onde o ar é mais puro e também mais leve. Havia no teu olhar toda a extensão de uma geografia equilibrada entre o mar e a serra, dum ritmo entre sementeira e colheita, as quatro estações seguidas, pontuais e completas. O som do Nocturno de Chopin entra pela casa da costura e voa até à eira onde o vento já atirou para longe a última espiga de trigo. Cansada mas atenta, a tua mãe sorri. Só tu permaneces na eira, hoje como em 1973. Nem o vento nem o tempo fizeram no teu olhar qualquer erosão.

2 comentários:

Joaquim disse...

Que belo poema, José do Carmo Francisco.
Se não quiser chamar "Nocturno" a essa, chame-lhe entardecer que é quando a luz é mais doce. E mais breve.
Obrigado
Joaquim Nascimento

Luis Eme disse...

Bonito... e tão Oeste...