PROSÉLITOS
DO NEONATURALISMO (4)


O proselitismo neonaturalista, na sua luta contra a “abstracção” (eufemismo que, como já vimos, esconde todo um conjunto de formas de expressão que não compactuam com a facilidade de leituras unívocas da realidade tangível que nos envolve, mas estruturam olhares infinitos sobre tudo quanto nos rodeia, visível ou invisível, existente ou imaginário, concreto ou abstracto), preocupa-se em atacar toda a poesia diferente da sua porque, alegadamente (como declarou Barreto Guimarães), “não comunica, não faz leitores, é um nado morto à partida”, uma vez que “só o autor sabe o que significam os seus poemas e, muitas vezes, nem eles próprios” (relevando no entanto deste “pecado” Herberto Helder porque, segundo escreveu há tempos Manuel de Freitas, a um “génio” “tudo se perdoa”).
Ecoa nestas e noutras atoardas a necessidade de uma poesia “ao serviço do povo”, defendida outrora pelo realismo socialista, pretexto invocado sempre que se tratava de nivelar por baixo e reduzir esse mesmo povo à indigência metal, facilmente manipulável. Numa época pós-moderna, cheiraria a bafio falar em “povo”, numa arte que “o povo entendesse”... Os objectivos podem ser até diferentes nos dias que correm, mas os fundamentos infelizmente são os mesmos. Em certos estômagos é muito pesado o ecumenismo poético, aquele que defende serem admissíveis todas as formas poéticas, desde que sirvam a palavra e não se sirvam dela, desde que transfigurem o mundo e não se limitem a devolvê-lo aos leitores tal qual o encontraram. Bem intencionados ou não, os propósitos de ontem e de hoje redundam num rebaixamento da capacidade de entendimento artístico, logo num empobrecimento mental dos sujeitos leitores que conduzirá, necessariamente, a uma maior alienação perante o mundo (físico, social ou espiritual) que os envolve.
Ninguém nega aos prosélitos neonaturalistas a liberdade de escreverem e publicarem poemas que se limitam à narração de episódios ou à descrição de cenários (embora consideremos que essa linha estética é na maior parte das vezes redutora e limitadora do desenvolvimento de potencialidades imaginativas e/ou racionais do ser humano). Temos no entanto o dever de denunciar a estratégia de “partido único” que vêm adoptando, ao tentarem queimar tudo quanto não reze pelo mesmo breviário, beneficiando umas vezes de um acesso privilegiado a certos areópagos para atacarem a liberdade criativa dos seus semelhantes, noutras ocasiões impedindo nos sítios certos a publicação de obras diferentes das suas ou então aproveitando a sua influência junto de certa comunicação social para escavarem um muro de silêncio em torno de propostas poéticas que os incomodam, não compreendem e/ou não querem compreender.
Há poucos anos uma escrevinhadora de narrativas sentimentais urbanas sem conteúdo afirmou num jornal que redigia os seus textos sem quaisquer exigências de estilo (ou de sintaxe, acrescentaria eu...) porque lhe interessava que todos compreendessem quanto escrevia (e, infelizmente, continua a escrever). Digamos, sem rodriguinhos: nivelou muito por baixo para vender os seus textículos, cuja melhor parte será a do papel em que foram impressos... Não acredito que, à semelhança desta produtora de pseudoliteratura, os prosélitos do neonaturalismo pretendam conscientemente instituir como via única na cultura portuguesa dos nossos dias uma poesia light (propósito, aliás, impossível de realizar, na medida em que poesia e ligeireza são realidades que mutuamente se excluem). Mas que disfarçam muito bem, lá isso disfarçam...

25 comentários:

vidinha disse...

Concordo e subscrevo, e depois a poesia está sempre ao serviço do povo, depende é do uso que lhe dão, ou querem dar. O problema do momento é que as pessoas até já gostam de pagar para pensarem por elas, porque um texto, seja ele de que género for é sempre propriedade de quem o lê.

manuel povinho disse...

Ruy Ventura, o seu texto é muito bom e lúcido,mas creio que Você perde tempo com essa gente, para mais atribuindo-lhe eventuais propósitos positivos embora enganados que estejam. A meu ver o caso é mais simples e mais abominável. Tal como nos tempos do "realismo socialista", que era a ponta da espingarda com que se fuzilava a liberdade (de criar e de viver) eles não visam aproximar o povo da poesia (valeria a pena aproximá-los de pilritos? O que é que o povo ganhará em ler poemas medíocres como os do actual JBLG ou quejandos?). O caso é diferente e está suficiente descrito nas conclusões que V. muito bem tira.
Basta ver quem é o guru deles, a nível "crítico": o Prado Coelho, cuja trajectória é mais que sabida.
Não perca tempo com gente dessa, siga mas é sendo o excelente poeta que é.

a.mafra disse...

Eu digo como diz o "manuel povinho", o seu artigo vale porque está bem escrito e mete dedo na ferida. Agora ligar a eles demais não ligue, não vale a pena, quem é que daqui a uns anos se lembrará dos neoneo ou lá o que é? Gente que diz que quem não escreve as coisinhas como eles não são percebidos, não merece comentários grandes. Por essa ordem de ideias ainda estávamos nos urros da idade da Pedra. E mais, esquecem que um escritor pode ser realista sem escrever coisas sem valor que é o que eles fazem com excepção de um ou outro que é poeta mesmo ou então não se entender. Só em Portugal, palavra, querem fazer de nós cromos?

andré sebastião disse...

interessa a poesia a toda a gente? é evidente que não, como é também evidente que nem a medicina nem a macroeconomia interessam a toda a gente. O leitor assíduo de poesia (ou simplesmente o leitor de poesia) não está à procura de textos fáceis ou de fórmulas-de-encaixar qualquer baça descrição de pequenos artifícos ou de um ou outro apontamento em espessos livros da mais contemporânea arte poética.
Será aceitável(JLBG)simplificar compêndios de medicina para fazer leitores?

Bolinho de mel disse...

Não sei se JLBG, que me disseram ser um competente médico, aceitará simplificar compendios de medicina para fazer leitores (de úlceras? de hemorróidal? de catarros?). Concerteza que não, seria uma idiotice que a sua inteligencia superior não contempla! Agora que outros esculápios o façam não duvido...E por isso há tantos infelizes que se ficam nas cadeiras dos joões semanas ou nas mesas operatórias dos aprendizes de feiticeiros.
Acredito que assim que JLBG retomar a "forma" (a sua actual mediocridade é decerto apenas um lapso) abandonará logo, porque é sério e consciente, as suas actuais...congeminações.
A bem do leitor que o apreciou e a bem da sua própria categoria.

rio mondego disse...

Quando passei pela tropa em Santarém, havia lá um alferes que tinha uma frase típica: "Estás-te a armar em intelectual, car..o?". Na tropa usa-se, hoje como sempre, um léxico sem qualidades.Sem "abstracções".
Não sei se este alferes escreve, mas se acaso o faz gostava de ler os seus poemas. Devem ser de um perfeito neo-neonaturalismo, que decerto o E.P.Coelho apreciaria no seu másculo recorte.

mankicego disse...

Ultimamente o salazarismo anda muito nas bocas do mundo.
Acho que esta de poesia light é um dos sintomas desse ó tempo volta pra trás.

Muro da Cedofeita disse...

O que mais me chamou a atenção, neste texto e respectivos comentários, foi o silencio sepulcral do sector criticado frontalmente e nomeadamente do JLBG.
Tal como em certas sociedades totalitárias, eles dispensam-se de responder não porque o articulista não mereça resposta (Ventura está bem uns furos acima deles), mas porque sabem que não precisam.
Têm a consciência de que a "bôla" é toda deles, para quê maçarem-se?
Como na tropa, um posto perto do generalato.

João Urbano disse...

Com textos deste calibre os ditos (erradamente) neo-naturalistas só podem esfregar as mãos de contentes. Considerar que os poetas do novo realismo fazem poesia para o povo é puro delírio da sua patusca cabecinha. A sua incompetência em discernir o que quer que seja de literatura está bem patente nos seus postes e nos seus muitos amigos na caixa de comentários. E essa sua defesa do abstracto como se ele fosse uma categoria poética não lembra o diabo. Como digo, os poetas do novo realismo certamente estarão a pensar em dar-lhe uma medalha, pois com adversários deste calibre dormem muito mais descansados. Os seus textos sobre a coisa poética são um verdadeiro desastre, inqualificáveis em termos do rigor conceptual e crítico mínimo exigível a um texto que se debruce sobre essas coisas. Não percebe que o pimba e o leight é escreverem-se patacuadas destas.

Silvina Ferreira disse...

Este urbano deve ser parvo. Em primeiro lugar gosta de pegar os touros de cernelha, pois nem sequer assume a sua identidade. Em segundo, não sabe ler, pois o que o Ruy Ventura defende é o ecumenismo poético, atacando o sectarismo dos neonaturalistas.
Quanto ao termo em questão, não foi ele que o inventou pois já vem sendo utilizado. É ainda curioso este ataque, certamente vindo das hostes neonaturalistas, pois esquece que este texto nem é uma novidade absoluta, na medida em que segue muito as pisadas de um outro de Gastão Cruz (o que o Ruy Ventura aliás não nega).
Este post é no entanto a prova de que o texto do Ventura está a incomodar e ainda bem. Entretanto, enquanto os cães ladram, a caravana passa...

RUY VENTURA disse...

Acabo de entrar e de me espantar. Gostaria de saber onde é que eu defendo o abstracto, quando começo a série de posts a afirmar, com Nemésio, que nem concreto nem abstracto são propriamente poesia... Mas sinto-me muito bem ao lado de Ruy Belo quando afirma que toda a palavra verdadeiramente poética tem que ser abstracta para multiplicar os sentidos. Se isso não agrada a certos sujeitos, estou-me nas tintas.
E nada mais acrescento pois só leitores distraídos ou mal intencionados é que não entendem o que escrevi. Agradeço entretanto os comentários que, como é óbvio, nasceram de leitores que desconheço em absoluto (não sendo, consequentemente, meus amigos...).

João Urbano disse...

Não, não faço parte e estou demasiado longe de fazer parte do dito gang terrivel de poetas pistoleiros. Segundo, não me escondo atrás de nenhum pseudónio. Terceiro, o Rui Belo que saiba é um poeta reverenciado pelo dito Gang. Agora andam à volta do Alexandre O´neill. Quanto ao Gastão Cruz, por favor, não desçamos tão baixo, faz parte do nosso anedotário poético. Quanto ao ecumenismo, desculpe mas ainda não me filiei nessa igreja, não faço parte do culto. Quanto às palavras abstractas, gostaria de saber qual a diferença entre palavras abstractas e concretas?
Quanto aos amigos não faça uma leitura tão literal, seja mais abstracto para bem da polissemia.

palhaço disse...

O Gang aprecia o Ruy Belo porque o chefe deles manda que assim seja

manel do norte disse...

Apreciam? Nisso estão muito enganados, pois os gajos acham que o Belo é um poeta cheiinho de qualidades...
Quanto ao resto, tenho pena que o Ventura seja um gentlemen e não ligue a ponta de um corno a malta do calibre deste urbano de merda que, não conseguindo argumentar, apenas sabe escarrar sobre a sua própria figura, insultando o seu semelhante. O que o gajo merecia era um processozinho em tribunal...
Essa de dizer que não usa pseudónimo não cola, pois vê-se bem que embora disfarçando está a soldos dos filhos da puta dos neonaturalistas, se não é um dos seus sequazes.

brandão lucas disse...

"Ninguém nega aos prosélitos neonaturalistas a liberdade de escreverem e publicarem poemas que se limitam à narração de episódios ou à descrição de cenários (embora consideremos que essa linha estética é na maior parte das vezes redutora e limitadora do desenvolvimento de potencialidades imaginativas e/ou racionais do ser humano). Temos no entanto o dever de denunciar a estratégia de “partido único” que vêm adoptando, ao tentarem queimar tudo quanto não reze pelo mesmo breviário, beneficiando umas vezes de um acesso privilegiado a certos areópagos para atacarem a liberdade criativa dos seus semelhantes, noutras ocasiões impedindo nos sítios certos a publicação de obras diferentes das suas ou então aproveitando a sua influência junto de certa comunicação social para escavarem um muro de silêncio em torno de propostas poéticas que os incomodam, não compreendem e/ou não querem compreender."

Caro Urbano, concorda com isto ou não? Parece-me que é este o cerne dos textos do ventura!

João Urbano disse...

Supondo que a maioria dos comentaristas são poetas, pelo que muito de vós deve ter entrado em puro delírio. Primeiro por padecerem do que acusam os outros de serem: puro sectarismo, autênticas destiladoras de ódio( não todos, claro está). Vejamos, o gang do novo realismo até é bastante complacente, e leva pouco a sério a sua cartilha. Basta estar minimamente atento. Um Manuel de Freitas não apenas está perto da Averno e de alguns Blanchoteanos e Benjaminianos, como tem um livro de crítica sobre o Herberto, que me parece ser o avesso do novo realismo. E este é só um exemplo. E quanto aos aéropagos, devemos ter o mínimo de sensatez. Que aerópagos? O espaço ridículo concedido pelos jornais à literatura? Certas editoras? Mas essas editoras como a Assírio tanto editam um Manuel de Freitas como um António Franco Alexandre ou um Tolentino de Mendonça, que pouco têm em comum. Cuidado com os moinhos de vento. Aliás, o público de poesia são duas ou três centenas de poetas chungas, pelo que falar aqui em partido único deve pertencer ao foro das teorias da conspiração. A poesia hoje é uma das artes mais deprecíadas e ridículas. Só os tontos é que ainda fazem poemas muito bem cuidadinhos e depuradinhos e e perfeitinhos e julgam estar a ter orgasmos celestiais.

Silvina Ferreira disse...

Que belo estalinista este urbano! faz lembrar o outro: não queremos poetas cá no país.
De propósito faz de conta que não entende o texto do ventura, talvez porque o assunto o incomode... O que aqui está em causa, como se pode verificar facilmente, não é a poesia produzida, mas o ataque movido pelos neonaturalistas contra as formas poéticas diferentes. Até chegam à aleivosia de "perdoarem" o Herberto porque não lê a cartilha deles...
Quanto aos leitores de poesia, são um pouco mais do que essas centenas, se tivermos em conta que muitos dos poetas que não lêem a cartilha do tal realismo não trabalham apenas para portuguezinho ler.

Silvina Ferreira disse...

Quanto à minha qualidade, se acha que ler poesia é ser poeta, então considere-me poeta. Escrever, não escrevo.

José Manuel Vilaça - Ponte de Sôr disse...

Já agora, como andam todos ao que parece distraídos, nem repararam que o culto e informado joão urbano, que é um belo reco, afinal escreve patacuadas e não, como devia, patacoadas.
O mínimo que se pode dizer é que é uma mescla de imbecil e de iletrado. Tenho a certeza de que se lhe tirássemos a meia que traz enfiada na cabeça, como os bandidos das vielas, não se veria um urbano e sim um poetastro falhado. Apesar de se calhar até escrever "muito bem".
Mas percebe-se bem quem é este Urbano. O seu estilo de escrever é revelador: um medíocre armado em arco, especializado na intriga que, como tem massa, edita livros que ninguém lê.
Por isso é que diz que a poesia não interessa, cheio de raiva, quando de facto a que não interessa é a dele.
Um belo exemplar de fascista travestido de estalinista.

Gaia disse...

O urbano, que é um safado, pensa que está no Pilho a deitar cuspo quando fala.
Um bicharoco que não merece mais que um pé em cima do lombo.
Não lhe dêem mais trela.

Gaia disse...

Ali era Piolho, claro. Faltou o o, como falta esperteza ao urbano.

J.Vieira disse...

Urbano, só agora notei que você se exprime muito mal. Como deve saber, pois terá algumas leituras, como referiu Walter Benjamin o homem é aquilo que escreve.
Assim sendo, só posso concluir que você é um pobre tipo ou mesmo um disfuncional.
Mas não deixa de merecer o nosso respeito, embora também mereça a nossa comiseração.

Bolinho de mel disse...

"O gang do novo realismo até é muito complacente", diz este senhor que se diz urbano e será mais um labrego. Vejam a forma típica dum fascista como ele trata as pessoas, com sobranceria misturada com uma escrita malfeitona, churra e quase cavalgadura. Se calhar se não fossem tão bonzinhos até espancavam as pessoas, não?
É evidente que, ponham-se as reservas intelectuais que se puserem aos neo, como pessoas são gente de bem e este urbano, uma bela peça, vem aqui para lançar a confusão.
Com certeza que os autores criticados não têm nada a ver com ele, que se mostra um rasca.
Ele e as suas palavra de recorte paranóide, uma vez que sem o mínimo senso crítico apenas insulta. E isso temos o direito de dizer que é de cavalgadura.
E bem baixa, aliás, pelo que se nota.

manuel povinho disse...

Ontem na rádio pública foi dito num programa que segundo um inquérito levado a efeito por uma revista americana, afinal os neo-naturalistas (risos) Paulo Coelho, Konsalik, um português famoso de que não digo o nome pois todos sabem quem é etc, afinal são dos mais vendidos mas dos menos lidos. Concluiu-se que os leitores chegando aí a um terço do livro desistem da xaropada.
Quer dizer são levados pelo marketing, mas depois a dura realidade vem ao de cima e tau, lixo com eles. Também se concluiu que cada vez ficam mais livros em fundo de edição ou seja, não se vendem. No bom estilo do slogan estalinista a gozar, de vitória em vitória até à derrota final.
E, esta é uma realidade que eu vi, nos alfarrabistas os livros desse escritor que não digo o nome já se está a vender pelo enorme preço de 3 euros (risos).
Virá o dia em que esses ganapos serão vendidos ao quilo para as fábricas de fazer papel de embrulho, é só dar tempo ao tempo.
Os neos, que querem o povo juntinho a eles, deviam meditar nisto.

Anónimo disse...

Há destas coisas: o correio não abriu e a espera levou-me, já não sei como, a desaguar nestes textos. Isto é hilariante! Todos acusam todos de serem o que também são. Tratam-se mal, dizem que há grupos "poéticos", com gurus (?), etc., etc.. Falam mesmo a sério?
Mais do que os poetas, não será de dar relevo aos poemas?
Ele há tantos bons de tanta gente diferente,poetas novos e velhos,do porto e de lisboa, das ilhas e do algarve!...
Vá lá, descansemos de tanto cansaço tonto!