ALDEIA

Não há semáforos à entrada da aldeia. No entanto, o vermelho cai constantemente, sobretudo para aqueles que - querendo avançar - vêm de fora, sendo de dentro. Não há sequer uma passagem para peões (ou qualquer limite de velocidade que justifique a sua presença). Existem, porém, semáforos invisíveis que não obrigam a parar, mas conseguem que o automóvel parta mais depressa. Por vezes sem cor, revelam dois ou três rostos conhecidos (na terra), sentados todo o dia na esplanada do café ou (daqui por uns anos) debaixo de uma das árvores do largo, num albergue ou à porta da casa mortuária. Só o verde parece não existir - para aqueles cuja presença incomoda as pedras. Para estes, os semáforos têm apenas duas lâmpadas (uma amarela, outra vermelha), avisando quem teime avançar contra a escuridão e contra o medo. Não se vêem, mas existem à entrada da aldeia – numa das curvas da estrada, depois do portão (sempre aberto) do cemitério.

Dois poiais sempre ao redor. Mas poderiam ser dois cabos eléctricos a debruar a fachada da igreja, dois focos a escurecerem a torre ou, apenas, duas placas com erros de ortografia. Assim se constrói uma aldeia... Mesmo quando existem roldanas, lembrando o embargo da construção. A terra é a mesma. E se, em cinquenta anos, foi cemitério, parque infantil, balneário público, junta de freguesia e parque de estacionamento, a culpa é apenas do terreno, instável, apesar da rocha. A essência fica e o odor é o mesmo. E não será uma trasladação em caixão de chumbo que irá resolver o assunto.

Das tascas nem uma sobrou. A única que ainda se ergue (com portas há muito fechadas) será, com certeza, um quarto de cama ou uma casa de banho privativa. A rua nem sobe nem desce. Até os andores, em dia de procissão, preferem agora estrada nova, num povo onde os santos têm reforma compulsiva, sem processo disciplinar nem culpa formada. As bocas - essas - calam-se, com medo.... Como se as casas (e todas as palavras...) fossem clandestinas, não vão alguns ser como o santo que, primeiro, se negou ao chibo da promessa, mas depois já corria atrás dele.
A alegria permanece, apesar das nuvens. E da cortiça (quase humana) que não sai - mesmo depois dos nove anos -, correndo o risco de perder a serventia. A alegria permanece. A vontade fica. Regressa. Embora traçada com a mágoa e com a angústia daqueles cujo automóvel encontra todos os dias (ou quase todos) um sinal vermelho à entrada desta aldeia.

4 comentários:

Anónimo disse...

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amigo cast.vide disse...

A terra aqui evocada pelo autor é Carreiras, uma terra muito bem situada na aba da serra, mas onde impera o negrume e o medo, ali há caciques políticos e policiais que são os donos devido ao apoio de um homem que não usa bigode nem barba.

Armando Trindade disse...

Gostei. Um abraço dum conterrâneo.

Ruy Ventura disse...

Abraço do conterrâneo autor...