ELEIÇÕES
(um olhar de Domingos Fernandes)

Todos o sabem: estamos em período eleitoral. Numa época em que é fácil deixarmo-nos enganar por candidatos “sedutores”, mas incompetentes ou corruptos, todo o pensamento que nos ajude no exercício de uma cidadania activa e consciente é precioso. No tempo em que vivemos, é preciso resistirmos à lábia dos homens que “roubam, mas fazem”, dos promotores da mediocridade e/ou da pseudoqualidade, de certa gente “simpática” que faz “jeitos”, que compactua com alguns juristas, alguns construtores e outros traficantes de influências. Só os “homens (realmente) bons” (sérios, íntegros, capazes) – para usar uma expressão com raízes na Idade Média – devem merecer a nosso voto, independentemente do partido que representem, pois, ao contrário do que alguns por aí afirmam, as eleições de 9 de Outubro não servem para avaliar o Governo e as suas decisões (correctas ou incorrectas), mas para premiar ou excluir os cidadãos que têm gerido, bem ou mal, as nossas cidades, vilas e aldeias.
Registava eu estas frases – lugares-comuns que é sempre bom reafirmar –, quando me lembrei de Domingos Fernandes (1887-1972). Poeta humilde e democrata republicano convicto, sofreu na sua terra (Carreiras, Portalegre), enquanto viveu, as agruras do caciquismo salazarento, cujos vestígios parecem resistir por ali, passados mais de trinta anos sobre a sua morte. Pouco ou nada publicou em vida. Deixou, no entanto, para o futuro os seus escritos – alguns deles poemas com mensagem política que talvez seja bom reler nestes dias. Foram publicados no nº 12 da revista Ibn Maruán, de Marvão, em 2002. Aqui ficam de novo, para proveito (espero) dos leitores.

“Será agora que eles olham para nós, / Que [querem] atender nossos pedidos? / É desde sempre, já os nossos avós / Viveram aqui, desprezados, esquecidos! // Eu deveras digo: sou um despeitado, / Embora nos oiçam já de mais perto. / Se o meu agouro não me sair errado, / Ficamos ainda... em pleno deserto. // Isto são manobras, não há mais que ver. / Enganar-me-ei nas minhas previsões? / É taxativo, vieram-nos prometer // Quando se aproximam as eleições. / No meu conceito, faz-me parecer, / Isto vem somar as nossas desilusões!”

“Minha terra malfadada! / Tu queixas-te com razão! / Só tens sido enganada / Dos governos da Nação. // Não terás tu o direito, / Pedires o que é justo?! / Só a muitíssimo custo, / Bem pouco te têm feito! / [...] // [...] Privaram-te dos direitos / Impõem-te os deveres, / Pois todos os teus haveres / Ao Estado são sujeitos. / Prometeram-te alguns jeitos / À porta da eleição. / Passa a ocasião, / Tudo se reduz a nada, / Se tens sido desprezada / Dos governos da nação!”

“Há muito livro bonito, / Muito bem encadernado; / Mas tudo quanto tem escrito / É reclame de mercado. // Há livros mal capeados, / Não prestam para vender; / Mas são uns livros sagrados / Que todos deviam ler. // Com tais livros apontados / Há homens muito parecidos; / Há talentos mal roupados, / Há imbecis bem vestidos. // Há muito sábio perdido, / É pena não ser achado, / Há muito burro mantido / À manjedoura do Estado.”

“[...] // Vão com frases sedutoras, / Cínicas, aduladoras, / Para conseguir um fim; / Essa corja de marotos / Vem de tempos mui remotos, / E hão-de seguir assim. / [...] / A nossa sociedade / Está mal organizada! / Atrofiou a verdade, / Consumiu a lealdade, / E segue descontrolada, / Pobre do povo! que vive, / Neste tremendo declive, / Guiado pelo cinismo / Que o priva de andar / Forçando-[o] a tropeçar / No monstro do comodismo. / Se não se equilibrar / Brevemente vai rolar / Desfazer-se no abismo. / [...]”

1 comentário:

Luís A.V. disse...

Já tinha lido num jornal portalegrense uma referencia sua a este poeta popular. Gostei.