CARREIRAS

As ruas das Carreiras onde eu nasci (após ter visto a luz em Portalegre e sangue novo em Lisboa) já não existem. São outros os nomes, outras as pedras – que teimam em não deixar esquecer a calçada antiga -, outras as casas. Só o horizonte não mudou ainda: a mesma serra, o mesmo azul longínquo, os mesmos sobreiros rompendo por entre as lajes, a escola, rompendo a folhagem das acácias e das amoreiras.
Entre o número oito da rua da Fonte Nova e o número cinco da Calçadinha, pouco resta de há vinte e cinco anos.
A fonte perdeu alguns dos seus azulejos e deixou de ter malvariscos pelo São João.
A dona Maria José já não se preocupa com as suas dálias, algures entre as minhas duas tangerineiras. O ti’ João Narciso já não abre a sua meia-porta vermelha, nem a ti’ Bernarda fica comigo na altura das azeitonas.
O barro desapareceu hoje dos caminhos (assim como os escaravelhos, e os burros escorregando até em frente às ruínas da Casa da Carreirinha).
Do Chão da Amoreira, como eu ainda o conheci, ficou apenas uma nesga de terra apertada entre duas casas. Os castanheiros, os abrunheiros, o muro (quase segurando a oliveira), situam-se no mesmo lugar que hoje ocupa a casa da avó - amarela, com barras brancas, um botaréu cheio de craveiros, uma roseira fazendo esquina frente ao canto do lume, do outro lado da rua, entre as flores dos rapazinhos e a parede de pedra solta, há muito tempo esbarrondada.
O Ribeirinho é hoje só nome de rua. Já ninguém lava nas suas águas, empresadas junto de uma figueira velha. Desapareceu sob o alcatrão e a sarrisca, para dar lugar a uma estrada larga. Continuo, no entanto, a regressar a este espaço, como se regressasse chamado pela voz dos sinos, que tanto embalam os mortos quanto repicam carreirense novo ou hora de procissão. O automóvel (como há uns anos a camioneta) continua a dar a mesma volta, trezentos e sessenta graus em torno da distância, feita entre algum riso e toda a melancolia.

12 comentários:

Mafra disse...

As Carreiras são mesmo assim.
Um artigo muito bem feito, deu-me gosto ler sobre esta aldeia que conheço bem, onde já tenho passeado. Parabéns ao poeta.

ribeirinholeal disse...

Dr. Ruy Ventura, o Sr. descreve a sua terra com uma poesia que faz transparecer afectos mil, feitos de recordações que têm sabor,cheiro e cor.
Também sou um admirador das Carreiras, há muitos anos rendido às suas belezas naturais e também à boa índole das suas gentes: pessoas acolhedoras, sãs, amigas de verdade.
Nos anos setenta examinei um grupo de cerca de trinta Carreirenses que tiraram a antiga quarta classe do Ensino Primário. Todos passaram por mérito próprio e em cada um deixei um amigo. Quando vou às Carreiras gosto de abraçar aqueles que ainda sobrevivem à erosão dos anos. "Aldeia Presépio" como alguém muito bem lhe chamou, é terra que encanta, pelo que o felicito pelo seu lindo texto, eivado de um saudável bairrismo

ns disse...

Já conhecia este texto. No entanto, sempre que o leio renovo o prazer que ele me comunica.
Já agora refiro que uma das minhas emoções recorrentes é, quando vou na estrada de Castelo de Vide (ou deveria dizer: na estrada da antes famosa e popular "praia dos tesos" que a poluição industrial da ribeira que ali passava destruíu) avistar a brancura da aldeia plantada na encosta da serra.
Quero também saudar a volta dum comentador que muito estimo e duma pessoa que muito prezo: unidos num só, o Prof. Ribeirinho Leal, um autêntico senhor que me dá o gosto de ser meu amigo.
Pelo que depreendo o desarranjo na net já foi ultrapassado e fico satisfeito com isso.

Anónimo disse...

Na verdade, o texto está muito bom, mas isso não se deve apenas à verve do autor – que, diga-se, é bem boa e sabida. Muito da beleza do mesmo (não tenho dúvidas sobre isso) incrusta no telúrico gosto que o embeiçado carreirense tem pelo torrão/berço (como eu tenho pela minha Calípole ducal). Quando se escreve sobre o sítio onde nos aplicaram a primeira nalgada (aquela que é dada quando estamos pendurados de cabeça para baixo, ainda nus, sem o conforto da primeira fralda e do primeiro baby-grow, lembram-se?), as letras e consequentes frases saem muito melhor, porque nos lembramos das primeiras texturas, dos primeiros cheiros, dos sons iniciais e das cores primevas que nos marcaram (para o bem ou para o mal) para sempre. Posto isto, viva o texto, que é realmente uma maravilha de escrita e amor pelo chão natal.
Mas não acabo ainda. Agora a conversa é com esse “bandido” chamado Nicolau Saião. Calma, leitor, não se assuste. Então acha que ia insultar o meu bom amigo portalegrense? Não! Foi ele quem assim se autodenominou, por solidariedade político/filial, em saboroso artigo para o jornal “Liberal”, de Cabo Verde (www.liberal-caboverde.com), no qual ambos damos o ar da nossa graça alentejana, em simpática confraternização plumitiva. E o dito “bandido” fala agora, em comentário ao venturístico texto, de uma “praia dos tesos”. Ó grande Saião, mais uma coisa para nos unir, coño (como você diz!). “Praia dos tesos”…
Eu cá, nunca vi a sua “praia dos tesos”. Mas tive uma do mesmo nome, na minha idade de 6 a 9 anos. A “praia dos tesos” do Alfeite, virada para o Seixal e para o Barreiro, em terreno da Marinha, com grumetes a passar, vista de buques de guerra e pinheiros de generosa sombra, quanto baste. Os tempos eram difíceis. Comia-se, vestia-se, mas a prata para pagar o autocarro até à Costa da Caparica era um bocado puxada para férias estivais de ir-e-vir todos os dias. Então, aquele pessoal (gente da Marinha, do arsenal da mesma, corticeiros e operários de labor vário) que morava na Cova da Piedade, Laranjeiro, Feijó e até de Almada, metia-se no seu sapatinho e lá ia a pé até à “praia dos tesos”, no Alfeite. Bom iodo, fraca poluição, berbigão aos milhares e reduzidos banhistas (que tinham de pedir autorização de passagem às sentinelas do vizinho Corpo de Marinheiros da Armada), faziam do local um pequeno paraíso.
Hoje, as coisas mudaram. Mas ficou no espírito a saudade por esse pequeno prazer que era ter uma praia quase particular. E depois, memórias como esta de a minha mãe, a brincar comigo, ter levantado repentinamente o braço esquerdo e ter visto partir pelos ares, em aflitiva fuga, a aliança de casamento que seis (6, sim!) horas depois reapareceu miraculosamente, a brilhar no areal?
Um viva, portanto, a Carreiras, e à sua e à minha “praia dos tesos”.

Joaquim Saial disse...

O texto de cima não é de anónimo. É de Joaquim Saial, que cometeu um deslize ao clicar no botão errado.

ns, "bandido" honorário disse...

Amigo Saial, então V. é só dar-me alegrias?
Bem haja por este comentário tão saboroso!
Olhe, vou-lhe (e para todos) falar um pouco sobre a minha "praia dos tesos". Para já, o nome: foi-lhe posto por gente de muito gabarito (segundo consta, mas aqui fica pelo preço que a comprei, por um tipo magnífico que se vai conhecendo aqui pelo "Galhetas"...) tentando amesquinhar algo que era o encanto do povinho, esse povinho que não tinha cheta para vacanças e, assim, ia para aquele rincão.
A gente terra-a-terra (que é do melhorzinho que por cá vai havendo), povoava as margens duma ribeira em estilo Renoir e ainda limpa na época: ali se fazia o comer e se degustavam as iguarias (coisas populares: o rico costado, o santificante carapau frito, o bendito chourição assado, as iscas de um gajo lamber os 20 dedos!), ali se cantava, se namoriscava, se repousava: era o operário e era o manga-de-alpaca, o caixeiro de loja e o pedreiro, e era com muitos outros de diversos mesteres cá o meco-poeta com licença de vossências. Ah! que saudades daquele tempo! Ah, que essas memórias me marejam os olhos, coño!
Mas veio a poluição e sujou, e feriu - e matou.
Querida "praia dos tesos", perdida para sempre!
Raios, que fico para aqui de punhos crispados.
Abracem-me, amigos, pela minha grande tristeza!
Mas - que reflua a alegria, pois essas recordações ninguém no-las pode tirar.
...E sabe-se lá se um dia aquela ribeira clara não poderá voltar ao que era!
Que as indústrias poluidores, rai's as partam, morrem - e as ribeiras ficam, mais que não seja dentro de nós.
Sursum corda!

Anónimo disse...
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Ruy Ventura disse...

A praia dos tesos não saboreei eu, pois quando eu era miúdo já ela estava poluída pelas águas ruças dos lagares e da fábrica do bagaço... Mas seja como for, faz parte da minha memória, com as altas árvores junto da ribeira de Nisa, com as suas pontes algo misteriosas (para mim, claro).

Joaquim Saial disse...

Quando escrevi o meu comentário (por pouco anónimo...), ainda o cantoneiro-mor da Estrada do Alicerce não tinha colocado a excelente fotografia a p&b que agora encima o seu carreirense artigo. É claro que este é tão sugestivo que dispensava ilustração. Mas, mesmo assim, vale de facto a pena ver aquele casario compacto, em escadinha, olivedo em baixo, tudo como se o mundo não tivesse males que a ele viessem.
Contudo, dentro de um daqueles lares, alguém estará a esta hora a fazer contas ao elevado preço dos livros escolares recém-comprados aos filhos ou aos muitos mais anos que repentinamente lhe passaram a faltar para a reforma...

Ruy Ventura disse...

A fotografia mostra uma parte da minha aldeia no ano em que nasci... Penso que nessa altura a maior preocupação nem seriam os preços dos manuais, mais como arranjar dinheiro para pôr os filhos a estudar. A foto data de 1973...

Joaquim Saial disse...

Não há dúvida! A nossa terra, é a nossa terra. Que me recoorde, ainda nenhum outro texto deste blog onseguiu o sucesso que Carreiras obteve: 10 comentários.
E aqui, um elo com a situação seguinte: quando vou de férias, mesmo que por apenas dois ou três dias e digo para colegas que nasceram em Lisboa "vou para a terra", vejo o ar de secreta pena estampada nos seus rostos que só tem a seguinte tradução: "este tem sorte, tem 'terra'; eu não, porque nasci na 'fábrica', em S. Sebastião da Pedreira".
Enfim, viva Vila Viçosa, viva Carreiras e (vá lá, sejamos magnânimos!) viva Lisboa.

Ruy Ventura disse...

Como referiu José Hermano Saraiva num programa dele, "a nossa casa é outra vez nossa mãe". Essa é que é essa...