QUINTA DO CONDE

Sempre que tenho ocasião de passear pelas ruas da Quinta do Conde, confesso que gostaria de concretizar em mim um pouco da filosofia do pintor austríaco Hundertwasser. Teorizador da relação total do Homem com a Natureza, se um dia tivesse a oportunidade de deambular por esta vila enxertada num imenso pinhal (de que resta ainda forte presença), certamente a contemplaria com um olhar esperançoso – vendo aqui todas as oportunidades de concretização do seu “Manifesto do Bolor”, da sua oposição ao betão e ao asfalto, da sua concepção anti-racionalista da arquitectura.
Infelizmente, não sou Hundertwasser. Se, por um lado, partilho a sua defesa de uma interacção criativa entre os seres humanos e o meio que os envolve, por outro repugna-me sempre toda e qualquer atitude que revele desprezo pelo espaço que habitamos. Tento trazer à superfície certas gotas de esperança. Mas não consigo esquecer, sempre que cruzo as ruas da terra onde agora habito, que aos cidadãos da Quinta do Conde se deve o entulho que por todo o lado se acumula, o lixo que suja espaços intrinsecamente belos (jardins que a Natureza nos oferece sem nada pedir em troca). Nestas horas, temo que se concretizem as linhas escritas um dia por António Osório (poeta de primeira grandeza): temo que este lixo e esta poeira tomem posse dos condenses e os afastem de um civismo activo, que um dia quiseram concretizar no nome da sua padroeira (Nossa Senhora da Esperança).
Apesar de tudo, gosto de viver na Quinta do Conde. Sempre que subo ao último andar da minha casa, deixo-me encantar pelo horizonte que a vista alcança – com pinceladas verde-pinho e cor-de-tijolo que conseguem iluminar os dias. Ao longe, adivinha-se o Tejo, encoberto pelas altas chaminés do Barreiro. E, se desço até à varanda do primeiro andar, consigo sentir já a respiração da Arrábida (altar da Saudade, como a definiu – e bem – o grande Teixeira de Pascoaes).
Seja qual for a direcção que tomemos, a Quinta do Conde consegue ser sempre uma antecâmara de algo mais alto, de um conjunto de lugares onde podemos sempre subir. De um lado, Lisboa e o Tejo. Do outro, a Arrábida e o largo oceano. Para nascente, Palmela e a sua fortaleza física e humana. Para poente, Sesimbra e – depois de Sesimbra – essa finisterra que nos atrai e nos assombra.
Entre todas as direcções, sigo quase sempre para Sul. Sempre que preciso de ouvir a voz do Espírito de modo especial, dirijo-me para o sul arrábido, onde sei encontrar – no verde denso, pontuado pela imponência dos rochedos, vizinho de um azul que nos eleva (o do céu e o do mar) – a voz de que nos cala, porque só no Silêncio podemos escavar a nossa Alma e nela encontrar os vestígios de memória que iluminam os dias que estamos destinados a viver. Ao dirigir-me para sul, sei-me vizinho das duas vozes da Serra – que tão bem souberam interpretar a herança aí deixada pelos sufis: mais longínquo, mas espiritualmente próximo, Frei Agostinho da Cruz; intenso e, simultaneamente, ingénuo, Sebastião da Gama. Os seus corpos, que fertilizam pedaços desta terra, parecem interpelar-me em cada momento – convocando-me para uma Palavra Essencial que é preciso aguardar, escutar e guardar no peito, lançar para o Mundo como um viajante que parte, depois de dois ou três dias de visita.
Antecâmara deste templo, que nem o fogo dos homens consegue destruir, a Quinta do Conde tem-me como cidadão discreto. Gostaria de contemplá-la de outro modo. Com maior encantamento. Que a Esperança (sua padroeira) se concretize por toda a parte. Que um Espírito limpo dê lugar a uma terra limpa. Que a espiritualidade secular de uma Arrábida – tão próxima – faça descer, sobre esta terra e sobre Homens desta terra, um amor profundo por cada pedaço de Natureza que Deus quis oferecer-nos.

6 comentários:

Ruy Ventura disse...

Este texto foi escrito propositadamente para a revista "Sesimbra Eventos".
Um abraço ao Pedro Martins.

mafra disse...

Andei ocupado com as aulas. Li agora tudo de enfiada. Muito bem, apoiado, isto cá por Évora está preto. E mais não digo.

castanha disse...

Infelizmente, essa sua preocupação pode-se estender a tantos outros sítios onde, a Natureza se mostra infinitamente generosa.

Mas foi muito bom ler este post.

Através das suas palavras foi possível viajar por todas essas entreguas desta Mãe tão amorosa.

Sobreviveu o Encantamento.

Pedro Martins disse...

Também para ti, Ruy, um grande abraço, e muitos parabéns por este espaço magnífico.

Ruy Ventura disse...

Obrigado, Pedro, pelas tuas palavras!

dont disse...

era aluno, há 15 anos, quando em dia de aula de urbanismo, professor e colegas me excomungaram por achar que a clandestina Quinta do Conde era melhor que muita legalidade construida...
é bom saber que não sou o único maluco.