Antologia “Fanal”

JOSÉ BENTO



Caminhava onde as ondas se enterravam.
E suas pegadas incitavam-no
ao serem logo devoradas:
olhava o longe até se ausentar
e nada o acompanhava, ninguém.

O nordeste contra a cara, hostil,
não fixava seu grito
o bastante para atingir a máscara
que um dia restituísse aquela hora,
partida ou regresso.

Prosseguia, abandonado
o que não chegara nunca a ser;
o chão – ora movediço ora cortante –
não lhe suscitava uma outra praia,
sequer um vale com lume, azul, uns figos:

para aí morar sempre amanhã,
sobrevivente dos incêndios sangrentos,
dos presságios cifrados
num livro ainda sem nome.
Senão talvez o seu, letras nenhumas.

*

Esgotamos o copo e saciamo-nos
por ser tão tenebroso
e o seu fundo,
traiçoeiro de espessura e turvação,
prometer a anulação que procuramos.

Lamentamos a ilusão e o esforço
para tragar esse amargor vazio
ao descobrirmos
que benévolo foi seu conteúdo.

Se não nos empeçonha
esse elixir astuto,
corrói-nos sabê-lo assim benigno:
já não ousamos confiar num outro,
nele demandar fuga ou abrigo,
por recearmos armado sempre tal embuste.

(nº 2, 16/06/2000 - na imagem, uma pintura de Nicolau Saião)

3 comentários:

indah disse...

Qué cierto. Cuántas veces -somos tan pequeños, tan limitados- nos lamentamos del esfuerzo hecho, de la ilusión puesta para tragar lo que, finalmente sabe, o eso nos parece, amargo. Y es que en ese momento no somos capaces de comprender cuán benévolo era su contenido: nos falta un sabor más amargo con qué compararlo. Nos falta la experiencia y, seguramente, conocernos mejor, apreder qué somos y qué poco podemos.

Hermoso poema :)

mafra disse...

Hoje dia 8, mais um Dia da impostura. Há os dias de mãe e pai, de criança, de árvore, fumos sem fumo e do idoso. O Estado põe e dispõe e quem não alinha é má pessoa.
Em Évora é o que é. Na minha cidade de nascimento e alguma presença, e é Portalegre, onde há o ambiente conhecido, de exploração e que é mau para mulheres, também para os homens, a grande Festa hoje é um espectáculo de streep-tease masculino e só para mulheres na Quinta da Cabaça.
E lá vão elas muito contentes, há muita "fome" escondida, pensando que fazem uma grande coisa por serem iguais aos homens de xaxa que vão para a casa de p...da Ribeira de Seda.
Poeira nos olhos e siga a dança!

Ruy Ventura disse...

Essa é que é essa, amigo Mafra. Assino o seu texto!