O SILÊNCIO DE DEUS

Com o corpo e com o espírito em Auschwitz, Bento XVI, no drama do indizível, questionou o silêncio de Deus perante o holocausto nazi. Tal como Cristo na cruz: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?"
Este gesto apresenta aos Homens de boa vontade a mais forte prova da crença, a do ser que procura respostas, que deseja comunicar com o Alto e compreender os sinais (mesmo os mais brutais) que Ele faz surgir, que não duvida da Sua presença mas anseia conhecer os Seus caminhos, mesmo os mais pedregosos.
Tudo em Auschwitz e noutros campos de morte parece afirmar na senda de S. Paulo: nem mortos seremos aniquilados. A voz de Ratzinger ecoa contudo:
"Num lugar como este, as palavras falham. No fim, só pode haver um terrível silêncio, um silêncio que é um grito dirigido a Deus: porquê, Senhor, permaneceste em silêncio? Como pudeste tolerar isto? Onde estava Deus nesses dias? (...) Como pôde permitir esta matança sem fim, este triunfo do demónio?"

3 comentários:

zé da marizé disse...

Ao ouvir-se estas palavras não pode deixar de ter-se um movimento de simpatia para com Ratzinger, que em tantas coisas nos deixa desconfiados.

Carlos Rófalo disse...

"É perfeitamente previsível que uma organização que vê o número de seguidores drasticamente diminuído sinta que tem que atacar violentamente a causa das suas desgraças. O que já não é normal é que se use de forma hipócrita a memória das vítimas do holocausto para esses fins! Especialmente quando em todo o discurso não houve uma palavra de reconhecimento da culpa colectiva católica no anti-semitismo polaco (e não só) - um ódio ancestral. Foi um sentimento que sempre esteve presente na nação, não foi importado da Alemanha aquando da guerra. Apesar das suas longas raízes históricas Ratzinger preferiu falar dos mártires e da maldade da modernidade em vez de reconhecer a culpa da Igreja em todo este cenário cultural." - D.A.

nina solana disse...

A Pergunta Certa


No passado domingo o Papa Bento XVI, visitou o campo de concentração de Auschwitz.

Foi neste campo de concentração, célebre pela ironia cruel das palavras «Arbeit Macht Frei» (o trabalho liberta) inscritas no alto do portão de ferro da sua entrada, que durante os anos de ocupação alemã foram praticados os mais horrendos crimes que a História da Humanidade já conheceu.

Decerto impressionado pelo tremendo peso histórico daquele local e tocado pela memória de quase dois milhões de seres humanos, a maior parte judeus, que ali morreram no meio do mais indizível sofrimento, o Papa Bento XVI perguntou, claramente comovido:

«Onde estava Deus naqueles dias? Porque ficou Deus silencioso? Como pode Deus permitir este infindável massacre, este triunfo do mal?»

Mas Bento XVI não fez certamente as perguntas correctas!
Visitando como Papa, enquanto líder máximo da Igreja Católica, um local de tanto sofrimento, talvez a pergunta mais adequada que Bento XVI deveria ter feito era:

- Durante os massacres de Auschwitz, onde estava Pio XII? Onde estavam todos os responsáveis do Vaticano? Como puderam eles ficar silenciosos perante este infindável massacre, este triunfo do mal?

E então, talvez bem a propósito, lhe surgissem tantas outras perguntas, há tanto tempo ainda sem resposta.
Por exemplo:

- Durante os massacres de Lenine e Estaline, onde estava Pio XI? Como pode ele ficar silencioso perante este infindável massacre, este triunfo do mal?

- Durante as ditaduras em Portugal e Espanha, durante as ditaduras militares da América do Sul, durante os massacres de Pinochet, Videla e outros que tais, onde estava Paulo VI? Como pode ele ficar silencioso perante este infindável massacre, este triunfo do mal?

- Durante os massacres de Mao Tse Tung e de Pol Pot, onde estava João XXIII? Como pode ele ficar silencioso perante este infindável massacre, este triunfo do mal?

- Durante os piores anos destas mesmas ditaduras, durante todos estes massacres em todos os continentes, onde estava João Paulo II? Como pode ele ficar silencioso perante este infindável massacre, este triunfo do mal?

- Durante os mais negros anos da Inquisição, por exemplo durante Tomás de Torquemada, onde estava Inocêncio VIII? Como pode ele ficar silencioso perante este infindável massacre, este triunfo do mal?

- Durante o processo de Galileu, onde estava Urbano VIII? Como pode ele ficar silencioso perante este infindável massacre, este triunfo do mal?

- Durante a imolação pelo fogo de Giordano Bruno, onde estava Clemente VIII? Como pode ele ficar silencioso perante este infindável massacre, este triunfo do mal?

Ou seja:
A pergunta certa não é, pois, «onde estava Deus?».
Esse, como é hábito, tem as costas largas e nós já sabemos onde estava:
- Estava no sítio do costume!

Muito pelo contrário, a pergunta certa deveria antes ser:
- Onde estavam os homens?

De "Random Precision"