AS PALAVRAS DE BENTO (2)


Isto torna o texto de Bento especialmente profético. Ao criticar a ausência de racionalidade na relação entre os seres humanos e Deus, o bispo de Roma conseguiu – sem esperar, talvez – inquietantes manifestações de irracionalidade, bastante comuns, aliás, no nosso tempo, em que as opiniões valem mais do que os factos, em que as suposições valem mais do que provas inequívocas, em que a manipulação e a ficção valem mais do que a verdade e a realidade. Nestes tempos de regressão civilizacional, isto deveria preocupar todos os homens de boa vontade. Mas não; preferimos continuar como avestruzes, enterrando a cabeça na areia.

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Dos que atacaram Bento pelas suas palavras, tomaram especial visibilidade quantos prontamente referiram os momentos negros na História da Igreja Católica. Esqueceram (terão esquecido?) que os terroristas islâmicos, perante o texto do papa, não ameaçaram somente os católicos, mas todos os “adoradores da Cruz”, com obediência ou não a Roma. Esqueceram ainda que a hierarquia católica foi, até ao momento, a única que levou o entendimento da sua História ao ponto máximo, promovendo, depois de um exame de consciência, uma confissão pública e expressando um propósito de emenda, fundado em confiança na ajuda de Deus. A Igreja Católica é pecadora? Decerto. É constituída por seres humanos imperfeitos. Teve no seu seio homens pouco racionais. Em várias ocasiões foi “tomada de assalto” por personagens duvidosas ou por classes (a nobreza europeia, por exemplo, durante largos séculos) que, não acreditando decerto na existência de Deus, viram na sua estrutura um bom instrumento para a concretização da sua ânsia de poder ou do seu desejo de rapina.

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Os julgadores de Bento e da Igreja merecem, por isto, uma avaliação pelos mesmos parâmetros. Vendo pecado nos outros, estarão eles isentos de manchas? Estarão dispostos a apresentarem-nas e a manifestarem sinceramente um propósito de emenda, seguindo o exemplo de João Paulo II e de Bento XVI? Terão a mesma coragem na denúncia das monstruosidades concretizadas pelas doutrinas (religiosas, políticas e/ou sociais) em que acreditam ou acreditaram? A superioridade dos cristãos sinceros não está na sua pureza, que não existe. Está, antes, na demanda da perfeição, que implica uma consciência diária dos defeitos e um propósito firme de aperfeiçoamento. Quem assim não age, por mais que se afirme cristão, nunca o será verdadeiramente – tenha o lugar que tiver na estrutura da Igreja (que, como muitos desejam esquecer, não se limita ao cume da pirâmide).

(continua)

3 comentários:

n.s. disse...

Gostaria de ler, em islamitas (que combato mas respeito porque são frontais e corajosos, ainda que fanaticamente)ou em membros da quinta-coluna mental ou expressa (que desprezo como pequenos sevandijas que são) que geralmente suja "órgãos de comunicação" onde episodicamente se espojam, a frontalidade de Ruy Ventura, que mais uma vez se mostra um verdadeiro "scholar" e um verdadeiro homem de bem.
Independentemente de ser, a meu ver, um verdadeiro cristão - dando testemunho e não arredando pé ante os horizontais de sempre.

rui disse...

Li e concordo (ou melhor: estou a concordar e espero pelo resto).
Atrevo-me a sugerir que há uns quantos "prudentes" que optam por não acreditar em nada (doutrinas religiosas, políticas e/ou sociais) para não terem que acarretar com responsabilidades de nenhuma espécie.

mafra disse...

Ôi, Rui Ventura. Agora sou professor na Guia, mas continuo a ver a nossa Estrada mesmo sem dar sinal.
O Rui continua em acção e não as deixa cair.
Siga a dança que há muito trabalho de esclarecimento a fazer.
Equipa do Estrada, parabéns e não desistam.