JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


A explicação das coisas

Há quarenta anos quando terminei o curso geral do comércio e me comecei a interessar pela Comunicação Social era costume, entre as pessoas da arte, ouvir dizer esta frase: «A TV mostra, a rádio conta, o jornal explica». Nesse tempo os jornais desportivos eram trissemanários, tinham o formato broadsheet e, como saíam só três vezes, tinham mais tempo para serem feitos. Por isso eram melhores. Agora há três diários desportivos e, como cada um tem 44 páginas, temos a bonita soma de 132 páginas diárias. A solução é, na aparência simples, mas os resultados são desastrosos. Não havendo tema para preencher 132 páginas inventa-se assunto. E inventa-se da pior maneira. Recorrendo à baixa intriga. Se um guarda-redes é preterido pelo seleccionador nacional vão fazer perguntas ao outro guarda-redes e não ao seleccionador. Nasce uma guerra de palavras. Se o presidente de um clube afirma que o novo presidente da Liga de Clubes foi eleito para travar o processo Apito dourado que corre no Tribunal de Gondomar, então em vez de chamarem a atenção para o erro crasso do presidente do clube que mistura alhos com bugalhos com intenções de desviar o foco dos problemas do seu clube para um assunto que corre os seus trâmites num Tribunal e não na Liga de Clubes, aparecem artigos a estranhar que o dito presidente da Liga não responda ao presidente do clube. Tudo isto acontece no dia em que o nome de Maria Margarida Ribeiro dos Reis desaparece do cabeçalho do jornal A BOLA. Com ela desaparece um certo tempo português quando os jornais existiam para serem a explicação das coisas e não a actual carne para canhão que enche todos os dias 132 páginas de vazio e de sem sentido.


(Lido aos microfones da RDP Açores em 25-8-2006 às 12 horas)

4 comentários:

Anónimo disse...

A frase de há 40 anos, corresponde na actualidade, à seguinte: A TV manipula, a Imprensa formata, a Rádio entretém. Todas, com singulares excepções, o Sistema.
Zé, o pântano é geral e é nele que os vermes se dão bem. Vê como estão prosperados.

roque santeiro disse...

Subscrevo. Se há jornalistas e jornais que têm qualidade e decencia, o geral infeliz é haver "comunicação social" onde abunda a mediocridade e a ignorancia, o produto de um sistema apoiado no oportunismo e tendo como intenção o sensacionalismo, a injúria e a difamação, de que era exemplo o pseudo-independente defunto há dias onde se esparramavam o clown Esteves Cardoso, o boçal Portas e o envinagrado e sobranceiro Pulido Valente.

Luis Eme disse...

Como as coisas mudaram em 40 anos, José do Carmo Francisco.
O problema é da sociedade actual, onde o "capitalismo" demonstra ser insaciável e intromete-se em tudo o que "cheira" a bom negócio, retirando a lógica das coisas.
Foi por isso que os jornais se tornaram diários, com mais intriga, sensacionalismo e menos conteúdo.
Como os "desportivos" eram os jornais que mais vendiam (e parece que continuam a ser...), despertaram a cobiça de muitos "escravos do dinheiro".
Com tudo isto, perdemos todos, inclusive os jornalistas desportivos, que quase não têm espaço para fazer uma reportagem com "cabeça, tronco e membros", muito menos uma entrevista a um jogador ou treinador (porque estão proibidos pelos presidentes de clubes, que insistem, em ser eles a notícia, e são, quase sempre pelas piores razões, como esse senhor Fiúza de Barcelos...).

jcfrancisco disse...

Como eu gostaria de não ter razão...Já agora uma peqeuna nota que prova como no SDporting nunca poderia haver um «caso Mateus». Quando o Mateus veio do Beja para o Sporting esperaram que a época desportiva acabasse e só depois foram inscreve-lo na equipa «B». Se em Barcelo tivessem feito o mesmo não havia caso.