JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


Não há contrato nem recibos


Numa das minhas idas ao supermercado aqui do meu bairro (o Bairro Alto fidalgo e fanfarrão...) deparei com um curioso anúncio colocado numa caixa de vidro. Vejamos:
Aluga-se casa pequena com tecto abaixo do normal. Sem máquina de lavar. Semi mobilado. Dois quartos, sala, cozinha e WC. Renda 300 euros mais calção. Não há contrato nem recibos. Fica ao pé do Metro da Avenida.
Segue-se um telemóvel que começa por 961 e termina em 731 e um nome – DORIS. Completa o quadro insólito um horário para contactos das 19 às 20 horas.
Este anúncio pode ser lido como um sintoma do despudor, da impunidade e da desvergonha que grassa por aqui. Não me refiro à péssima utilização da língua portuguesa. De facto “caução” não é “calção”. “Calção” é para vestir. Mas o mais importante é a possibilidade de alguém se atrever a anunciar em público um aluguer que não fica registado em qualquer documento e cujos pagamentos não estão sujeitos ao controlo de qualquer recibo. É um triste sinal dos tempos e nem está em causa se existe mesmo essa senhora que se assina DORIS. Também não está em causa se aquele telemóvel existe mesmo. O que está em causa é a impunidade com que isto se faz à luz do dia, dentro de um supermercado no coração da cidade de Lisboa. Até parece que estamos não na Europa mas no Terceiro Mundo. Aqueles países onde tudo é irreal e qualquer pessoa pode colocar no seu automóvel um letreiro com a palavra «Táxi» a desatar logo a fazer fretes mas sem taxímetro. O problema não é ela escrever “Não há contratos nem recibos” mas sim ela poder fazer isso sem que ninguém a responsabilize pela ilegalidade que está a anunciar. E ela sabe isso muito bem.

5 comentários:

Anónimo disse...

Este exemplo só prova que já chegámos à Madeira e ao Brasil, com um atrevimento estilo-Jardim e um total desprezo pela legalidade, estilo-Lula.
Posto isto, é feio denunciar...

Samalho Corticão disse...

Pois é, mas a realidade portuguesa é esta: vivemos num país de pequenos vigaristas. Quem para cá vem só apanha o estilo!

olegário guilherme disse...

Não acho que seja feio "denunciar", pelo menos casos destes. Era feio era denunciar pessoas à Pide. Acho que o autor fez muito bem em DESMASCARAR, porque é disso que se trata, esta vigarista (inconsciente?).
A questão é que gente da qualidade da citada, como as pessoas são delicadas e não "denunciam", encaram isso como suporte da impunidade, não delicadeza.
Se houvesse mais gente a "denunciar" a sociedade estaria melhor, pois como esta gente vígara é em geral cobardolas, inibia-se mais.
Os meus parabéns a JCF por ter "denunciado"(DESMASCARADO).

rabetah disse...

Acho curioso ter vindo um anónimo com pruridos, dar o chá de que é feio denunciar...
Ignazio Silone tinha uma expressão mais adequada e real para isto: "solidariedade de crápulas".

e.santaclara disse...

Deixemo-nos de tretas moralistóides: o que este exemplo prova é que há vigaristas na sociedade portuguesa. A culpa nem é dos lulas nem dos jardins, é de quem deixa que estas vigarices continuem a existir e não lhes dê punição.
O resto é conversa de xaxa.
Por isso fez muito bem o poeta José C. Francisco, chamando os bois pelos nomes.
Por causa da hipocrisia dos filisteus, disfarçada de boas maneiras, é que a borga continua.
Ajam as autoridades, como lhes compete, sem populismos fedúncios e o ambiente melhorará.
Deixemo-nos de cavalheirismos de aristocratas da trampa.