VALE DOS HOMENS


António Pedro,
meu avô


desapareceu a partir dessa janela.
a pele liquefez-se. a voz procurou
água que conseguisse desenhar
as ervas, o arco que divide o mundo.

o olhar perde-se por entre as árvores.
vaza a vista, a cor da madeira, o cabelo
que semeaste na escada.

distante a horta, o poço, o canto do lume.
o vento grava neste porto
a navalha que nos corta as veias.
subia procurando um rosto,
um dedo apenas, os frutos desta
e de outra terra.

desapareceram a partir desta janela
a pele, a voz, o olhar, a cor, a manhã.

o elevador pára. perde-se
neste porto

a alegria da viagem

(sem retorno).

1 comentário:

jcfrancisco disse...

No canto do fogo o poema é um calor que não se perde e fica no poema para sempre ou pelo menos até que os livros vivam dentro de nós vencendo as emboscadas do esquecimento. Um abraço