Delicadeza (de cócoras)…

Estive no norte – e vim de lá de peito feito. Os ares do norte fazem-nos disto, deixam-nos sem paciência para aturar gandulos. Por causa da mudança de ares? Não sei e o curioso é que me sucede o mesmo se regresso de Espanha. E de França. E do norte de África. E mesmo de…
Pensando bem, até me sucede o mesmo no meu lar: se vou da cozinha à sala, se vou do quarto à “casa dos livros”, sinto farnicoques semelhantes. E até quando vou à retrete. E no átrio. E na marquise!
Em resumo: deve ser do meu feitio – pouca paciência para aturar gandulos tal como para aturar bêbados. Não tenho pachorra, atiro logo o velho coice. Até, vejam lá, me sucedeu com uns palermas que recentemente me chatearam com tolices em espaços interactivos!
Quer isto dizer que sou um enragé?
Nem por sombras! Acho que sou um tipo muito doce. Cheio de minutos de ternura, tendo movimentos interiores muito cariciosos…
Olhem há bocado, por exemplo: um amigo, que não é tolo nem parlapatão, deu-me uma notícia que logo me pôs o olho a luzir de mansuetude. Contou-me ele que, num painel de propaganda do nosso estimado Cavaco, esplendia convenientemente enquadrada por uma bandeira portuguesa de vastas proporções uma frase amorável e muito delicadinha. Rezava ela, se o relato não me atraiçoou: “Portugal precisa de si”.
“De si”, sublinho. Não “de ti”. Não de “o meu amigo”. Não “de vossência” – ou outra qualquer amenidade pelo estilo.
E isto põe-me como que a sonhar… A matutar na delicadeza, na reverência educada da mente que a concebeu, que a pespegou para valer. Uma frase realmente digna de um digno futuro presidente com que certos sectores contam para fazer a barrela do portugalinho.
Assim é que é. Não como nas cidades gregas, onde o putativo líder local era logo tratado democraticamente (abusivamente?) por tu. Ou na proletária América, onde um qualquer político vê devassada a sua intimidade pessoal (logo de figura). Ou na aristocrática Inglaterra, onde um qualquer homem público é bajuladoramente quase tratado por “sir”, à cautela.
De si… Sim, é esta a delicadeza que faz falta: respeitosa mas contida, tão escorreita como o perfil enxuto, bem português, do algarvio de Boliqueime.
Uma delicadeza retintamente lusitana?
Não sei… Mas que é bonito e sério, lá isso…
Será a política cavacal, finalmente, a safa deste país sem etiqueta?

Nicolau Saião

2 comentários:

Alegrete disse...

ahahahahah, Nicolau.
Blogue cada vez melhor, Ruy Ventura.

Ruy Ventura disse...

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