UM LIVRO ESSENCIAL
(Acentos, de Fernando Gil)

É difícil não sentir nojo quando assistimos às posições de certa esquerda. Há ataques a países que têm assumido firmeza no combate ao terrorismo e, ao mesmo tempo, um silêncio cúmplice quando se trata de condenar a destruição da paz mundial levada a cabo por chefes islamistas. Existe má-fé quando se avaliam os maiores crimes da História, quando se condena (e bem) o nazismo, mas se desculpam os massacres do comunismo. Branqueiam-se entretanto novas formas de terrorismo urbano, praticadas por arruaceiros que, mais do que marginalizados, se auto-excluem da convivência social.
A juntar a esta situação, temos o “multiculturalismo”, assumido por uma Europa que não consegue resolver sentimentos de culpa se não abdicando dos pilares da sua civilização, aceitando práticas que os contradizem, mesmo que sejam inaceitáveis. Tudo sob vestes “pós-modernas”, escondendo um nihilismo perigoso, que desfaz uma cultura matricial e estabelece o nada, tentando preencher o vazio com uma amálgama indigesta.
Neste tempo de pré-suicídio europeu, surge em Portugal um livro essencial para compreendermos melhor o tempo em que vivemos. Acentos, do filósofo Fernando Gil, editado pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda, reúne um conjunto de estudos e de entrevistas que andavam dispersos. Em quase três dezenas de textos, esta obra coloca à nossa disposição reflexões fundamentais sobre temas tão diversos quanto a filosofia da crença e do conhecimento, o urbanismo e a vivência social citadina, a educação básica e universitária, a literatura de Luís de Camões e de Vitorino Nemésio, o estatuto das ciências sociais no mundo actual, a falência ideológica da esquerda e as causas íntimas do terrorismo.
De entre as quase quinhentas páginas do volume, revestem particular importância para o nosso tempo as que compõem os capítulos “Os Saberes e a Cidade” (pp. 183 a 251) e “Medos” (pp. 361 a 491).
Permito-me destacar “A Escola e a Sociedade Civil: a responsabilidade pública e os seus limites” (pp. 203 a 218) – que deveria ser leitura obrigatória para todos os agentes envolvidos no processo educativo, nomeadamente os decisores e burocratas do Ministério da Educação, os professores e os familiares dos nossos alunos – na medida em que denuncia com fundamentos fortíssimos a “derrota do universalismo” da educação e da instrução, que pode conduzir a “uma certidão de óbito do sistema de ensino”, na medida em que se consagra uma erosão do conhecimento, a pretexto de um falso respeito pela “diversidade”.
Destaque merece ainda toda a reflexão em torno do terrorismo. Nela relevo a análise dos seus fundamentos, deturpados em geral pelo falso “pacifismo” politicamente correcto, que não esconde a sua tolerância em relação ao islamismo radical, porque vê nele capacidades para recriar um novo “Pacto de Varsóvia” anti-americano. Nesta matéria, é muito importante o conselho de Fernando Gil: “(...) saberemos encontrar as boas respostas se decidirmos resistir colectivamente, por todos os meios ao nosso alcance, nisso investindo a nossa imaginação, a nossa inteligência e saber, e o nosso tempo, distinguindo o que é importante do que o não é (...), fazendo as alianças que é preciso e possível fazer em cada momento – por exemplo, no plano internacional, com países árabes não integristas ainda que autoritários. Partilhando o esforço dos Estados que se batem contra o terrorismo e nos defendem, mesmo quando dirigidos por políticos com a estupidez escrita na cara. E empenhando-nos inteiramente na refundação da democracia. Só assim nos reforçaremos. E só a partir de posições de força nos será dado encarar o futuro com menos apreensão.” (p. 410)
Que assim seja... a bem da Europa e da sua cultura humanista.

5 comentários:

M.Justino disse...

É muito verdade isto tudo que diz e que cita do filósofo.
Acho que está bem e faz sentido. Uma achega importante para o conhecimento da cobardia moral e do cinismo com que alguns se apresentam falseando, dizendo que é compreensão e tolerancia.
Com não-democratas e terroristas não a pode haver. Ceder é entregar "o ouro ao bandido".

Ruy Ventura disse...

Concordo plenamente com o seu comentário, que agradeço.
Realmente não podermos vergar-nos perante certas dimensões inaceitáveis desta Europa em que vivemos. Veja-se, por exemplo, a posição assumida pela esquerda francesa perante os distúrbios generalizados: em vez de apoiar o governo nos esforços que desenvolve para restaurar a ordem pública, pede a demissão do ministro com argumentos inspirados na conversa dos arruaceiros.

ns disse...

Caro Ruy, subscrevo inteiramente o seu artigo. Não ceder à chantagem moral e ao cinismo da quinta-coluna disfarçada de progressistas (na verdade nostálgicos do estalinismo) é um imperativo humano e democrático.
Paralelamente, continuemos a opor-nos ao outro ramo, que a pretexto da luta pela preservação da civilização tenta estabelecer limites aos direitos fundamentais.
Em suma: nem terroristas nem autoritários direitistas, tão relapsos uns como outros.

Ruy Ventura disse...

Claro!

Ruy Ventura disse...

Há no entanto um aspecto a esclarecer. As práticas desta gente que tudo branqueia, se não forem travadas a tempo, terão uma consequência muito gravosa: abrirão as portas para os neo-fascismos, para quem a xenofobia e outros ódios são o melhor fertilizante para as suas ambições totalitárias. Por isso é tão importante que pessoas progressistas como Fernando Gil denunciem o que está a acontecer na Europa. Só assim travaremos os nostálgicos do nazismo, do salazarismo, do franquismo, etc..