GENEROSIDADE

Sempre que posso, perco-me pelos alfarrabistas de Lisboa ao encontro de raridades que me toquem pela sua importância, mais do que pelo seu valor monetário. Tenho para mim que alguns livros antigos ou em segunda mão procuram os seus próprios donos. Não somos nós que vamos na sua demanda, são eles que esperam por nós – aguardando a nossa visita e a nossa atenção apaixonada.
Tenho tido, nos últimos tempos, momentos felizes na minha paixão bibliófila. Em poucas semanas consegui adquirir – ainda por cima a preços incríveis! – várias preciosidades. Não é para fazer inveja que levo ao vosso conhecimento os nomes dos meus novos amigos (confesso-vos, os livros são para mim amigos): Húmus, de Raúl Brandão (2ª edição); Estudos Críticos, de Castelo Branco Chaves; Os Positivistas, de Álvaro Ribeiro; Sangria, de Fernando Grade (autografado); Entre Mar e Rio, de Ribeiro Couto; Goya, de Ramón Gómez de la Serna; Agosto Azul, Cartas Sem Moral Nenhuma e Inventário de Junho, de Manuel Teixeira-Gomes; São Paulo, de Teixeira de Pascoaes; O Mal do Tempo, de Berdiaev; várias traduções de Agostinho da Silva e a sua biografia de Leopardi; Os Idólatras, de Maria Judite de Carvalho; etc..
Deixo para o final duas obras valiosas: uma antologia do Prémio Almeida Garrett, de 1954, e Cio, o primeiro livro do poeta portalegrense Carlos Garcia de Castro, editado em 1955. Sobre a primeira escreverei nesta crónica. Sobre a segunda debruçar-me-ei em próxima ocasião, pois merece um texto individual, por motivos que nessa altura descortinareis.
Atribuído pelo Ateneu Comercial do Porto em 1954, só três anos mais tarde a antologia do Prémio Almeida Garrett viu a luz do dia. Este concurso e este livro têm uma história que merece ser contada, dado que envolve nomes fundamentais da Literatura Portuguesa do século XX. Começa pelo júri, com nomes que dispensam apresentações: Afonso Duarte, João Gaspar Simões, Paulo Quintela e Vitorino Nemésio. Foram 103 as obras concorrentes. Entre elas coube o galardão a uma obra de Miguel Torga.
Neste nome reside a mais intensa dimensão desta colectânea. Não integra um único poema do autor de Poemas Ibéricos, uma vez que a obra teve edição autónoma. Não foi paga, como seria de esperar, pelo Ateneu Comercial do Porto, que promovera o prémio. Foi paga pelo primeiro premiado que, tendo conhecimento da alta qualidade de algumas das obras que haviam sido preteridas em favor do seu livro, decidiu abdicar do valor monetário que lhe era devido para proporcionar aos seus colegas de letras (jovens ainda e inéditos em livro) as alegrias da publicação. (É caso para perguntar: quantos poetas “medalhados” do nosso tempo teriam hoje coragem para manifestarem uma generosidade idêntica?)
A história terminaria aqui se os autores antologiados no livro que veio para a minha biblioteca fossem hoje ilustres desconhecidos. Acontece que, entre a vintena de poetas aí incluídos, constam alguns poetas hoje indispensáveis no edifício da Poesia Portuguesa Contemporânea. Entre eles, destacam-se Fernando Echevarría, Cristovam Pavia, António Gedeão e, além deles, Fernando Vieira,José Carlos Ary dos Santos (que autografa o livro) e alguns outros, com obra estimável.
Estes autores não tinham, em 1954, qualquer livro publicado. Tivesse Miguel Torga guardado o dinheiro no bolso, qual teria sido o destino da obra destes escritores, cuja poesia hoje reconhecemos?

PS – Em Março de 2004 garantiram-me que a obra poética de Cristovam Pavia seria reeditada, o que não acontece desde inícios dos anos ’80. Mas, até hoje, nada surgiu. Para quando será? Parece-me urgente!

3 comentários:

Ruy Ventura disse...

Aproveito para deixar aqui um grande abraço ao meu amigo José Carlos Marques, director da "DiVersos", cuja generosidade o levou a oferecer-me um exemplar da poesia completa do Cristovam Pavia que, até aí, eu ia lendo em fotocópias.

ns disse...

Eu tive um saudoso professor de inglês que era um irónico espírito à boa maneira britânica. Assim sendo, dizia-nos depois dum espalhanço:"É como dizes, sim senhor - só que inteiramente ao contrário...".
O mesmo digo agora em relação a certos "operadores" (como dizem os politicamente correctos, que também chamam resistência aos terroristas) intelectuais em acção: procedem como Torga - só que absolutamente ao contrário...
Não chegariam os dedos das duas mãos e dos quatro pés para contar os que, receosos de concorrência, tudo fazem para impedir a publicação de livros a colegas mais desafortunados. Utilizando frequentemente o companheirismo de formatura, de família política, mesmo de enquadramento diverso, empatam e marginalizam este, aquele, aqueloutro que tenha como denominador o não lamber botas...não lamber mesmo nada a semelhantes fulanos.
...Mas parece que, no meio dos brandos costumes que alguns tentam instaurar (até na blogsfera, hélas!) não é bonito chamar os bois pelo nome!
Assim sendo, calo-me já - endereçando um vivo aplauso à memória, viva, de Torga.

Ruy Ventura disse...

Essa é que é essa, amigo Nicolau!